A Brisa da Meia Noite

Na pequena vila de São Cristóvão, as noites sempre pareciam ter vida própria. Era uma terra de ventos gentis e silêncio acolhedor, onde as ruas de paralelepípedo refletiam o brilho da lua cheia. Ali, meia-noite era muito mais do que o marco de um novo dia; era o momento em que a brisa dançava pelas casas, varandas e praças, carregando segredos e histórias de amor.

Laura e Daniel eram parte desse ritual noturno. Haviam se conhecido em um baile da vila, quando já tinham ultrapassado os cinquenta anos. Ambos traziam nos ombros o peso de histórias de vidas vividas, com suas conquistas, dores e cicatrizes. Laura, viúva, era dona de uma pequena livraria no centro da vila, onde as paredes eram forradas de livros antigos e o cheiro de páginas amareladas misturava-se com o aroma de café fresco. Daniel, um relojoeiro aposentado, encontrara em sua oficina um refúgio para os dias de solidão, onde o tic-tac dos ponteiros era sua única companhia.

Foi em uma dessas noites, depois do baile, que se encontraram pela primeira vez sob a figueira centenária da praça. O vento sussurrava entre as folhas enquanto eles dividiam risadas tímidas e confidências inesperadas. A brisa, quase como uma cúpida silenciosa, parecia empurrá-los um para o outro, envolvê-los em um cântico que apenas eles podiam ouvir. Desde aquela noite, sem combinarem, seus caminhos sempre se cruzavam à meia-noite.

Os encontros se tornaram um ritual. Daniel trazia um pequeno pacote de biscoitos amanteigados, enquanto Laura sempre tinha um livro ou um poema para compartilhar. Sentavam-se no banco de madeira próximo ao chafariz, e a brisa era sua eterna companheira. Conversavam sobre tudo: os anos que haviam passado, as escolhas que os trouxeram até ali e os sonhos que ainda os embalavam. Era um amor que nascia sem pressa, como uma planta que cresce sob o sol e a chuva, enraizando-se nas pequenas coisas.

Uma noite, Daniel apareceu com um sorriso nos lábios e um antigo relógio de bolso nas mãos. "Quero que este relógio marque nossas horas juntos, Laura," disse ele, entregando-lhe o objeto com cuidado. O relógio tinha uma inscrição na tampa: "O tempo é um presente". Laura o aceitou com os olhos marejados e prometeu que ele sempre estaria consigo.

Conforme os meses passaram, a vila se acostumou a vê-los juntos à meia-noite, como parte do cenário noturno. Havia algo de encantador e profundamente humano na maneira como se olhavam, com uma mistura de ternura e compreensão que só os anos vividos podem trazer. Não era um amor de faíscas repentinas, mas de brasas constantes, que aquecem mesmo sob o frio da noite.

Uma noite de primavera, quando as flores de jasmim exalavam seu perfume pela praça, Daniel se atrasou. Laura esperou pacientemente, o relógio em mãos, ouvindo o vento brincar com as folhas da figueira. Quando ele finalmente chegou, trazia uma pequena caixa de madeira. "Queria te dar algo mais," disse, com a voz baixa. Dentro da caixa havia uma pulseira feita com delicadas contas de vidro azul, entremeadas por pequenas plaquinhas de prata com palavras gravadas: coragem, ternura, esperança.

"Não só para lembrar do que vivemos, mas do que ainda viveremos," explicou ele.

Laura sorriu, sentindo o coração bater mais forte. "Então, continuaremos a nos encontrar à meia-noite?" perguntou, embora já soubesse a resposta.

"Sempre," respondeu Daniel, segurando a mão dela. A brisa soprou mais forte, como se aplaudisse o momento.

E assim foi. No correr das estações, o casal maduro encontrou nas noites de brisa sua maior cumplicidade. Eram dois corações que, mesmo marcados pelo tempo, decidiram amar com a simplicidade de quem sabe que cada instante é precioso.

Sob a figueira, entre risos, silêncio e o vento dançante, Laura e Daniel escreveram juntos a mais bela história de amor que a vila de São Cristóvão já testemunhou. E a brisa, fiel testemunha, carregou seus sussurros para as estrelas.

 


Silvia Marchiori Buss

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