Vida Sem Você
De quem foi essa ideia estúpida de que eu posso viver sem você?
A frase pairava no ar como uma flecha suspensa, pronta para perfurar a pele do silêncio. Sara a pronunciou em voz alta, sentada à mesa da cozinha, diante de uma xícara de café que esfriava lentamente. O sol filtrava-se pelas cortinas finas, iluminando as migalhas de pão que restavam no prato, as mesmas que ele sempre implicava que ela deixava espalhadas. Há meses, aquele lugar era compartilhado por dois. Agora, era apenas ela.
Desde que Francisco partira, Sara tentava preencher os dias com afazeres, como se a organização da casa pudesse arrumar também o caos dentro dela. Mas o vazio não se deixava enganar por truques. Ele estava lá: entre as roupas que ainda guardavam o perfume dele, na gaveta do banheiro onde a escova de dentes permanecia intocada, e, principalmente, no lado esquerdo da cama, que se recusava a aquecer.
Ela ainda se lembrava do momento exato em que ele se foi, como uma fotografia que o tempo não desbotaria. Francisco apertara sua mão com uma força surpreendente para quem já estava tão frágil. Sussurrou algo que Sara não conseguiu entender, mas a intensidade do olhar dele parecia conter todas as palavras que não precisavam ser ditas. E, depois, ele se foi. Assim, simplesmente, deixando para trás o som de um mundo que ela não conseguia mais escutar.
Naquela manhã, ao pronunciar a pergunta pela primeira vez, Sara não esperava resposta. Era um desafio jogado ao universo, uma tentativa de encontrar sentido no absurdo. Levantou-se e foi para a sala, onde a estante de livros ainda guardava os preferidos de Francisco. Ele sempre lia poesia à noite, algo que Sara achava um tanto melancólico. Mas agora era o que a atraía.
Ela pegou um dos livros, abriu ao acaso e encontrou um poema sublinhado. “A vida é um rio que corre, mesmo quando o barco se quebra...” Francisco devia ter lido aquilo em voz alta para ela, em algum momento, mas Sara não se lembrava. Sentou-se no chão, com o livro no colo, e começou a ler, como se as palavras pudessem trazer um eco de sua presença.
Naquela noite, Sara sonhou com Francisco. Ele estava sentado à mesa da cozinha, no lugar de sempre. Olhava para ela com aquele sorriso meio torto que fazia seu coração acelerar.
— Você não tem que viver sem mim, sabe? — ele disse, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
— Mas você se foi — respondeu ela, sentindo a dor subir pela garganta como um grito preso.
— Eu não estou tão longe quanto parece — ele replicou, estendendo a mão como se fosse tocá-la.
Antes que ela pudesse alcançá-lo, ele desapareceu, deixando apenas o som de sua risada suave no ar.
Sara acordou com o coração disparado. A sala estava silenciosa, mas, pela primeira vez em meses, o vazio parecia menos pesado. A pergunta — de quem foi a ideia estúpida de que eu posso viver sem você? — ainda estava lá, mas agora parecia ter uma resposta. Ninguém precisa viver sem quem ama, porque o amor é teimoso. Ele permanece, mesmo quando tudo mais desaparece.
E assim, Sara levantou-se, tomou seu café e abriu as cortinas da sala. O sol entrou, espalhando uma luz morna pela casa. O dia claro lhe trouxe a esperança de que ele nunca estaria completamente ausente.

Silvia Marchiori Buss
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