Vida e Perdas

Joana nasceu sob o signo das tempestades, embora as estrelas nunca houvessem conspirado para lhe dar um destino menos tumultuado. Desde pequena, parecia carregar em si uma tristeza latente, como se sua alma fosse moldada em um terreno onde o vazio e a plenitude coexistissem. Sua avó paterna, com quem compartilhava tardes de histórias e silêncio, foi a primeira a partir. Joana tinha apenas oito anos, e naquela idade, aprendera pela primeira vez o peso de um adeus que não tinha volta.

Seu pai, Carlos, era o próximo na lista cruel das perdas. Joana o amava de uma forma que transcendia palavras, como se ele fosse o fio invisível que a conectava ao mundo. André partiu de maneira abrupta, arrancado de sua convivência por um acidente que a lógica não explicava e que o coração dela jamais quis compreender. Joana tinha dezesseis anos, e a ausência dele parecia ecoar por todos os lugares da casa e dentro de si. A dor transformou-se em um buraco que nenhuma tentativa de consolo conseguia preencher.

Pouco tempo depois, foi a vez de Pedro, seu primo, mais do que um irmão, quase uma extensão dela mesma. Ele era o companheiro de todas as aventuras, o refúgio de seus segredos. No dia em que completava vinte e três anos, Pedro deixou o mundo de forma trágica. A ironia cruel da vida fez com que a data de celebração se transformasse em luto eterno. Joana sentiu que algo dentro dela se despedaçava de vez.

Os anos passaram. A vida, com sua insistência em seguir adiante, trouxe a maturidade, o casamento, os filhos e a profissão. Joana encontrou na medicina veterinária uma forma de amar e cuidar, de devolver ao mundo um pouco da ternura que ela mesma perdera.

E então veio André. Outro André, com um sorriso capaz de iluminar as partes mais sombrias do coração de Joana. Ele era doce, sensível, mas também firme, e juntos, construíram uma vida que parecia destinada a dar certo. Joana finalmente acreditava que a felicidade, embora não pudesse apagar as cicatrizes do passado, era capaz de coexistir com elas.

Mas a vida, sempre imprevisível, não permitiu que essa calmaria durasse. André foi “abduzido” — era assim que Joana descrevia sua perda. Não havia outra explicação para aquele momento em que ele partiu em seus braços, deixando-a em um vazio tão profundo quanto os anteriores, mas também infinitamente mais cruel. Ele era sua ancoragem, sua promessa de que o mundo podia ser um lugar seguro. E, mais uma vez, ela estava à deriva.

Hoje, Joana escreve. Nas madrugadas insones, as palavras tornam-se o único consolo capaz de transformar o que era insuportável em algo suportável. André, Pedro, seu pai e sua avó continuam vivos em cada linha, em cada memória que ela compartilha com o mundo. A sensação de perda ainda a acompanha, mas agora, é como uma velha amiga: silenciosa, constante, mas às vezes surpreendentemente gentil.

Joana aprendeu que viver é isso: uma dança delicada entre o que se foi e o que ainda resta. E no balanço entre a ausência e a presença, ela encontra sua própria forma de continuar, com a coragem de quem amou e perdeu, mas nunca deixou de amar.


Silvia Marchiori Buss

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