Sobre o Tempo
A vida, em sua natureza enigmática, tem o curioso talento de nos surpreender com movimentos bruscos, como se estivéssemos dançando em um tablado que subitamente desaparece sob nossos pés. Essas rasteiras, aparentemente cruéis, nos desestabilizam, provocam dor, revolta, e um senso de injustiça que, à primeira vista, não conseguimos compreender ou aceitar. Entretanto, com o passar do tempo — esse senhor tão misterioso quanto implacável — as emoções se aquietam, a poeira assenta e, com a cabeça fria, começamos a enxergar algo que antes estava oculto: a ordem natural das coisas.
O tempo, afinal, é o grande maestro da nossa existência. Ele
orquestra cada nota da nossa jornada com uma precisão que, por vezes, escapa à
nossa capacidade de percepção. Quando nos perguntamos “E se?”, estamos, na
verdade, tentando confrontar essa força invisível, imaginando realidades
paralelas que poderiam ter acontecido caso tivéssemos tomado outras decisões,
seguido outros caminhos ou dito outras palavras. No entanto, essas indagações
apenas reforçam a presença do tempo como elemento central: é ele quem tece os
cenários em que nossos “E se” nunca se concretizarão.
Talvez o maior desafio imposto pela vida seja aceitar que
esses ajustes do tempo — por mais dolorosos ou incompreensíveis que pareçam —
possuem um sentido que, eventualmente, se revelará. Não se trata de resignação
passiva, mas de compreender que, ao perdermos algo, estamos sendo convidados a
ganhar outra coisa. Às vezes, é um aprendizado; outras, uma nova oportunidade;
e em algumas situações, apenas o espaço para um recomeço.
A vida não é linear. Ela é feita de ciclos, de rupturas e
reconstruções, de avanços e retrocessos que se entrelaçam como os fios de uma
tapeçaria. Quando olhamos para a obra enquanto está sendo tecida, tudo parece
um caos. Os fios se cruzam de maneira aparentemente aleatória, formando nós e
espaços vazios que não fazem sentido. Mas quando damos um passo para trás e
observamos o quadro completo, percebemos que cada elemento, mesmo os mais
perturbadores, contribuiu para criar algo belo e significativo.
Portanto, talvez a resposta esteja em aprender a dançar com
o tempo, em vez de resistir às suas exigências. O tempo não pode ser
controlado, mas pode ser compreendido. E nessa compreensão, descobrimos que as
rasteiras que ele nos aplica não são o fim, mas parte do caminho. São as quedas
que nos fazem questionar, refletir e, eventualmente, crescer. São os ajustes do
tempo que nos ensinam que viver é, acima de tudo, confiar que há uma sabedoria
maior conduzindo nossa jornada, mesmo que nem sempre possamos enxergá-la de
imediato.
Silvia Marchiori Buss
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