Silvia e a Biblioteca das Vidas Possíveis

Desde menina, Silvia era fascinada por histórias. Ficava atenta a tudo que pudesse se transformar em um conto, enxergando em cada detalhe do cotidiano uma possibilidade narrativa. Na pequena cidade onde vivia, poucas coisas aconteciam: nascimentos, mortes, nada trágico. Ainda assim, Silvia tinha o dom de transformar o ordinário em algo fantástico.

Mas o verdadeiro fantástico estava dentro de um armário embutido, no último quarto da grande casa onde morava. Esse armário era mais do que um móvel: era sua biblioteca secreta, um lugar onde inúmeras vidas e experiências habitavam. Silvia guardava e zelava por esse espaço como quem cuida de um tesouro. Ela acreditava que, dentro de uma biblioteca, era possível viver todas as vidas imagináveis, ser todas as pessoas que desejasse.

No entanto, por ainda ser muito jovem, Silvia não compreendia o potencial daquele refúgio. Muitos a consideravam apenas uma inventora de histórias. Sempre que contava suas narrativas para a vizinhança, sentia os olhares desconfiados dos adultos, que não a compreendiam. Com o tempo, esse julgamento a afastou de sua biblioteca. Silvia começou a pensar que aquilo a tornava estranha, diferente, solitária.

Tudo mudou quando Silvia descobriu a biblioteca da escola. Esse novo espaço ampliou seu mundo. Lá, ela se encantou por histórias que iam de romances emocionantes a aventuras de ação, e percebeu que toda vida, de certa forma, é uma ficção aos olhos dos outros.

Foi ali que Silvia conheceu Dona Marieta, a bibliotecária. Estranha como Silvia, Dona Marieta também viajava com as palavras dos livros, experimentando ser quem quisesse. Ela era o oposto da mãe de Silvia, que achava a filha esquisita. Entre livros e conversas, as duas criaram um vínculo profundo, partilhando muitas vidas e experiências. Silvia aprendeu com Dona Marieta, mas também a ensinou.

Essa amizade, contudo, teve um desfecho doloroso. A trágica doença de Dona Marieta trouxe Silvia para mais perto da realidade da vida: a morte. A ausência da amiga a isolou novamente, mas, dessa vez, ela se sentia menos solitária. Aprendeu a se aceitar como era, com suas “estranhezas”, que na verdade a tornavam única.

Conforme Silvia se tornava adulta, ampliou seus horizontes tanto na vida quanto nas palavras. Entre casamento, filhos e trabalho, encontrava momentos para ler. Mas o hábito de criar histórias começou a prevalecer. Ela passou a escrever mais do que lia, fundindo-se com seus personagens a ponto de, às vezes, desconfiar de si mesma.

O tempo fez de Silvia uma narradora de vidas – reais e fictícias. Encontrou realização como pessoa, mãe e esposa, mas também como escritora. Descobriu que, entre a vida e a morte, há sempre uma biblioteca. E que dentro dela, as possibilidades nunca têm fim.

Hoje, Silvia olha para trás e percebe que cada livro que leu, cada história que criou, era uma forma de viver plenamente. Em suas narrativas, encontrou consolo, coragem e compreensão para lidar com a complexidade da vida. A biblioteca de sua infância – o armário embutido – continua lá, agora repleta de livros que ela mesma escreveu.

Na última página de sua vida, Silvia sabe que as histórias nunca terminam de verdade. Elas apenas aguardam um novo leitor, uma nova interpretação, uma nova chance de existir. E, em cada uma delas, Silvia vive novamente.

Silvia Marchiori Buss

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