Os Avatares Que Vestimos ao Longo da Vida
Todos nós temos nossos avatares — máscaras que vestimos ao longo da vida. Elas surgem de forma quase instintiva, seja para nos proteger, seja para sermos aceitos em um grupo, em um ambiente de trabalho, ou mesmo no seio familiar. A necessidade de pertencimento, tão intrínseca ao ser humano, muitas vezes nos leva a moldar nossa essência para caber em espaços que parecem não ter sido feitos para nós.
Quando nos damos conta de que não nos sentimos parte de um
lugar, surge o impulso de criar um avatar. Ele pode ser a pessoa sorridente e
confiante no trabalho, o membro da família que mantém tudo sob controle, ou o
amigo que sempre parece estar bem, mesmo quando não está. Essas máscaras são
adaptações, estratégias de sobrevivência emocional que, em um primeiro momento,
nos ajudam a atravessar os desafios do cotidiano.
Porém, com o tempo, essas máscaras podem se tornar parte de
nós. O que começou como uma ferramenta temporária para lidar com o mundo
externo pode confundir nossa percepção interna. Quem somos realmente? Somos
aquele avatar que criamos para o ambiente de trabalho? Ou somos a versão que
emerge nas conversas com amigos próximos? Somos a figura que os outros esperam
ou a que nos encara no espelho quando estamos sozinhos?
Essa multiplicidade de "eus" pode ser tanto
enriquecedora quanto desgastante. Enriquecedora porque as máscaras nos ensinam
a transitar entre papéis e a compreender diferentes perspectivas. Mas também
desgastante, porque, ao vestirmos tantas camadas, corremos o risco de nos
perdermos de nossa verdadeira identidade. O que é genuíno e o que é construído
pode se misturar de tal forma que fica difícil distinguir onde termina o avatar
e onde começa o "eu".
Talvez o grande desafio de nossas vidas seja aprender a
viver com autenticidade, equilibrando as máscaras que usamos com a nossa
essência mais pura. Não se trata de eliminar os avatares — eles têm sua função
e importância —, mas de reconhecê-los como ferramentas e não como substitutos
do que somos. É preciso coragem para olhar para dentro e permitir que nossa
verdade interior aflore, mesmo quando o mundo parece exigir outra coisa.
Ao fim, somos todos um mosaico de máscaras e verdades, de
adaptações e essências. E talvez a busca por quem realmente somos não esteja no
ato de arrancar todas as máscaras, mas no de escolher, conscientemente, quais
delas queremos vestir e quando é hora de deixá-las de lado.
Silvia Marchiori Buss
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