Onde Quer Que Eu Vá

A chuva tamborilava no vidro da janela, criando um ritmo constante que ecoava no silêncio da pequena casa. Ana observava as gotas escorrerem, como se fossem fios de memórias deslizando por sua mente. O cheiro de café recém-passado preenchia o ar, mas ela não tinha vontade de se mover. A xícara, já morna, repousava em suas mãos como um último vestígio de conforto.

Havia um caderno aberto à sua frente, as páginas ainda em branco. Não era a falta de palavras que a incomodava, mas a ausência de sentido em preenchê-las. Desde que Gabriel partira, tudo parecia ecoar um vazio insuportável. Eles haviam se conhecido em uma tarde de primavera, em um parque que Ana visitava para encontrar inspiração. Ele era como um raio de sol inesperado, iluminando até os cantos mais escuros de seu coração.

Gabriel tinha o dom de transformar o ordinário em extraordinário. Um simples passeio de mãos dadas parecia conter o peso de um universo inteiro. Ana sempre soubera que ele não era um homem comum, mas nunca imaginara que seu amor viria com uma despedida tão precoce.

Agora, sua voz ecoava em sua mente como uma música que se recusava a ser esquecida. “Onde quer que eu vá, você vai comigo”, ele costumava dizer. A frase se tornara um mantra, uma promessa que ele parecia cumprir mesmo após a morte. Ana sentia sua presença nas pequenas coisas: no calor do sol em sua pele, no cheiro de terra molhada após a chuva, na brisa suave que lhe tocava o rosto.

Determinada a honrar essa promessa, Ana decidiu embarcar em uma jornada. Gabriel sempre sonhara em viajar pelo mundo, mas a vida os prendera à rotina e às responsabilidades. Agora, ela levaria consigo suas cinzas e suas memórias, visitando cada lugar que ele sempre quis conhecer.

A primeira parada foi Paris, a cidade que Gabriel dizia ser feita para os amantes. Ana se sentou às margens do Sena, com um pequeno frasco de cinzas em mãos. Ao espalhá-las no rio, sentiu uma paz que há muito lhe escapava. “Você está aqui”, sussurrou, permitindo que as lágrimas corressem livres.

De Paris, seguiu para a Toscana, onde as colinas douradas pareciam dançar sob o sol. Gabriel sempre falara sobre a simplicidade de uma vida cercada pela natureza, e Ana se viu sorrindo ao caminhar por campos de girassóis. Em cada destino, ela encontrava um pedacinho dele — na arquitetura, na culinária, nas pessoas que cruzavam seu caminho.

Mas foi em Kyoto que Ana sentiu algo que a transformou para sempre. Enquanto caminhava pelos templos antigos, envolta pelo perfume das cerejeiras em flor, sentiu um vento quente passar por ela. Era como um abraço invisível, uma confirmação de que Gabriel nunca a deixara. Ele estava em cada respiração, em cada batida de seu coração.

Ao final de sua jornada, Ana retornou à pequena casa, agora repleta de lembranças renovadas. O caderno, antes em branco, estava preenchido com palavras que contavam sua história. Gabriel não era apenas uma memória; ele era parte de cada passo que ela dava. E, como ele prometera, estava com ela onde quer que fosse.

A chuva ainda caía, mas agora parecia uma melodia suave, acompanhando o ritmo da vida que continuava. Ana sorriu. Onde quer que fosse, sabia que nunca estaria sozinha.




Silvia Marchiori Buss

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