O Velório de Beatriz

Beatriz acordava cedo, antes do sol despontar no horizonte. As primeiras luzes do dia, ainda tímidas, eram suas companheiras enquanto vasculhava os obituários. Nomes desconhecidos, rostos que jamais veria, vidas que nunca cruzaram o seu caminho preenchiam aquelas páginas. Com um suspiro, anotava um ou dois velórios do dia e traçava o itinerário mental. Era preciso rapidez, principalmente se quisesse assistir à missa e ainda conseguir algum espaço na sala do velório.

Ao passar pela cozinha, já deixava a mãe ajeitada. Dona Laura, beirando os noventa, mal percebia o movimento da filha em busca de sua peregrinação diária. Beatriz cuidava dela com zelo, mas era no choro pelos mortos que encontrava seu verdadeiro alívio.

A pequena cidade em que moravam oferecia algum conforto à vida discreta que levavam. Beatriz, sem filhos, sem marido e sem grandes amizades, encontrava nos velórios uma companhia que lhe soava íntima. Naquele ambiente onde as lágrimas eram justificadas, ela derramava as suas sem pudor. Chegava de mansinho, cumprimentava um ou outro parente do falecido, mantinha o semblante compenetrado, e, com um resmungo trêmulo, sussurrava: “Meus sentimentos”.

A primeira lágrima escorria devagar, como quem pede licença. Beatriz a deixava ir, e, aos poucos, o rosto era dominado por um pranto pesado. Não era pelo morto, não. Era por tudo aquilo que ela não conseguia dizer, por cada sonho enterrado, cada lembrança perdida, por tudo que viveu e que ninguém mais saberia. Ela se desfazia em silêncio, em suspiros abafados, até que o choro fosse interrompido pelo pai-nosso final ou pelo som abafado do caixão descendo à sepultura.

Aos olhos dos demais, Beatriz era uma mulher profundamente piedosa. Sua presença assídua nos velórios tornou-se conhecida. Uns achavam um pouco excêntrico, outros viam como um gesto nobre. Mas ninguém ousava perguntar o motivo. Era como se Beatriz pertencesse àquele ritual, uma parte necessária do luto coletivo, alguém que sentia o que outros não conseguiam expressar. Contudo, ninguém sabia que ali ela se encontrava consigo mesma, com seu passado e suas dores escondidas.

Certo dia, Beatriz apareceu em um velório mais distante, em uma cidadezinha a alguns quilômetros dali. Fez o trajeto longo com paciência, levando sua velha mãe na lembrança, e, ao chegar, se encheu daquele espírito de luto. Lá, o clima parecia diferente: havia menos gente, o morto parecia desconhecido de quase todos. Beatriz, sentada em uma cadeira ao fundo, percebeu que a ausência de rostos conhecidos a libertava ainda mais.

E chorou. Chorou como nunca. Cada soluço parecia arrancar de dentro dela uma carga que se acumulava há décadas. Choro de criança perdida, de mulher solitária, de filha cuidando da mãe idosa, de sonhos que não viraram realidade. Chorou como se aquele velório fosse seu próprio funeral.

Quando enfim as lágrimas se aquietaram, Beatriz sentiu que algo em seu peito havia sido aliviado. Ela permaneceu no velório até o último momento, até o caixão descer e o silêncio da sala se impor.

Ao voltar para casa, Beatriz não anotou mais nenhum obituário. As visitas diárias aos velórios terminaram. No coração dela, algo havia finalmente encontrado repouso. Ela entendia, ainda que sem palavras, que aquele último velório foi também sua despedida. Beatriz, que por tanto tempo chorou em velórios alheios sua própria vida, agora parecia ter feito as pazes com ela.

 


 Silvia Marchiori Buss

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