O Que Tiver Que Ser

O cheiro do café fresco se espalhava pela casa como um consolo. Laura olhava pela janela da cozinha, perdida nos tons acinzentados do amanhecer. A velha fazenda em que crescera parecia um reflexo de sua alma: desgastada pelo tempo, mas ainda de pé, sustentada por memórias e segredos enterrados.

Laura tinha voltado para a fazenda após quase duas décadas longe. A morte repentina de sua mãe a puxara de volta como uma maré inevitável. Deixara uma vida confortável na cidade, um emprego estável, e um relacionamento que era mais conveniência do que amor. "É só por um tempo", dissera a si mesma ao fechar a porta de seu apartamento. Mas algo em seu peito sussurrava que essa volta seria definitiva.

No sótão da casa, Laura encontrou uma caixa que parecia nunca ter sido aberta. Dentro, estavam cartas escritas à mão, todas endereçadas a ela. A caligrafia era de seu pai, um homem que ela acreditava ter abandonado a família quando ainda era uma criança. Mas as palavras nas cartas contavam uma história diferente.

"Minha querida Laura,

Se você está lendo isso, é porque o tempo me traiu. Espero que um dia você entenda as escolhas que fiz. Nada foi fácil, mas tudo foi por amor a você e a sua mãe."

As cartas eram cheias de arrependimento, mas também de explicações. Seu pai não a abandonara por descaso, mas para protegê-la. Envolvido em negócios obscuros, ele escolhera se afastar para garantir que a família ficasse longe do perigo. Laura sentiu um nó na garganta. Toda a raiva que carregara por anos começou a se dissolver em um misto de dor e compaixão.

Enquanto lia as cartas, começou a notar que algumas datas coincidiam com os momentos mais difíceis de sua infância: o incêndio que quase destruiu a fazenda, os meses em que sua mãe desaparecera em viagens misteriosas. Tudo fazia parte de uma rede de segredos que agora começava a se revelar.

Determinada a descobrir mais, Laura foi ao centro da cidade, onde encontrou dona Marlene, uma velha amiga da família que trabalhava na biblioteca local. Ao mencionar as cartas, Marlene ficou pálida, como se um fantasma tivesse acabado de atravessar a sala.

— Laura, — disse Marlene, com a voz tremendo — você tem certeza de que quer saber a verdade? Algumas histórias não têm finais felizes.

Mas Laura já estava comprometida. O que tivesse que ser, seria. Marlene entregou a ela um dossiê antigo, cheio de recortes de jornais e documentos oficiais. Aos poucos, as peças do quebra-cabeça começaram a se encaixar: seu pai estava envolvido em uma rede de contrabando, mas havia se tornado um informante para as autoridades. Quando tudo deu errado, ele foi forçado a desaparecer, fingindo sua própria morte para salvar a família.

De volta à fazenda, Laura sentiu o peso de tudo que aprendera. Caminhou até o velho carvalho no fundo do terreno, onde uma lápide marcava o lugar em que seu pai supostamente estava enterrado. Com as mãos trêmulas, começou a cavar, movida por uma intuição que não conseguia explicar.

Sob a terra, encontrou uma caixa metálica. Dentro, havia mais cartas, uma foto de sua família sorridente e um relógio que ela lembrava de ver no pulso de seu pai. Junto, um bilhete curto:

"Se você chegou até aqui, significa que ainda há esperança. Procure por mim na cidade onde o rio encontra o mar."

Sem pensar duas vezes, Laura arrumou suas coisas e partiu. A pequena cidade costeira era um lugar humilde, mas cheio de vida. Seguindo as pistas, encontrou um homem trabalhando em um pequeno estaleiro. Ele estava mais velho, mais magro, mas aqueles olhos... Eram os mesmos olhos de seu pai.

— Laura? — ele disse, com a voz entrecortada pela emoção.

Ela não respondeu. Apenas correu para abraçá-lo, sentindo pela primeira vez em décadas que uma parte de si estava finalmente completa. O reencontro foi agridoce; havia muito o que perdoar, mas também muito o que reconstruir.

Os dias seguintes foram dedicados a conversas longas e emocionantes. Seu pai contou sobre os anos de exílio, os perigos que enfrentara e o desejo constante de voltar para casa. Laura, por sua vez, compartilhou suas próprias lutas, suas perdas e o vazio que sentira sem ele.

Quando decidiu voltar à fazenda, Laura o convidou para ir junto. Ele hesitou, mas acabou aceitando. De volta à casa que carregava tantas memórias, pai e filha começaram um novo capítulo, juntos. Nem tudo seria fácil, mas Laura finalmente entendia: o que tiver que ser, será — e, às vezes, isso é o suficiente para seguir em frente.


Silvia Marchiori Buss


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