Morrer Como Um Beijo

 Morrer como um beijo... Como essa ideia me atravessa a alma e me faz refletir. Não preciso de profundo conhecimento da Cabala para sentir a poesia contida nessa frase, a beleza simples de imaginar o último suspiro como um toque leve, um encontro delicado, um adeus cheio de ternura.

Se a vida é um conjunto de encontros, talvez a morte não precise ser algo diferente. Penso na suavidade de um beijo: ele é breve, mas deixa um rastro. Uma marca invisível, um calor que persiste. E se a morte fosse assim? Um instante tão cheio de significado que não caberia em palavras, mas que deixaria em quem fica a memória do gesto, da entrega, da paz.

Morrer como um beijo é imaginar que o fim não precisa ser um rompimento brusco, mas uma transição suave, um passo para outro lugar. Talvez o beijo não seja apenas o fim, mas também um convite. Um convite para quem parte seguir adiante e para quem fica aprender a deixar ir.

A ideia me traz consolo. Não porque a morte deixe de ser dor ou ausência – ela sempre será –, mas porque a vejo agora envolta em algo mais. Não apenas um adeus, mas um gesto de amor. Não apenas um fim, mas também um eco de tudo que foi vivido.

Quando penso na morte dessa forma, lembro de quem já se foi. Das despedidas que tive e, principalmente, da que mais me marcou. Há algo de beijo na forma como ele se foi, nos meus braços, o corpo rendido à paz, sem resistência e nem dor. Naquele momento, não havia mais resistência, apenas um abandono doce, como se ele confiasse a mim o peso de sua partida. Foi um beijo que ficou gravado em mim, mesmo sem ter tocado os lábios.

A morte, como um beijo, nos aproxima do essencial. Ela retira os excessos, deixa apenas o que é verdadeiramente importante. E talvez seja isso o que importa, no final. Que sejamos capazes de transformar o ato de partir – ou de deixar partir – em um gesto de amor, em algo tão suave quanto o toque dos lábios que dizem adeus.

 

Silvia Marchiori Buss

 

 

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