Eu Te Empresto Meus Olhos
Eu te empresto meus olhos, porque é através deles que quero que continues a enxergar o mundo. Verás, com eles, teus filhos e teus netos brilharem, como sempre sonhaste. Quero que saibas que tua ausência nos pesa, mas seguimos adiante. Sem você, os dias são mais cinzentos, e a casa já não ressoa a mesma alegria. Ainda assim, estamos nos esforçando.
Tu foste, és, e sempre serás o responsável por nossa família. Pela união que construíste com cuidado, pelo sucesso que semeaste em cada um de nós. Quero que saibas que tua memória é um farol, guiando-nos nos momentos difíceis, iluminando o caminho nos dias mais escuros.
Nossa casa sente tua falta. As paredes, outrora preenchidas com tua voz, ecoam o vazio. A cama, cúmplice de nossos sonhos compartilhados, perdeu o calor do teu corpo. E meu coração, esse que parecia tão forte, sente saudade da tua ternura, da tua força silenciosa que fazia tudo parecer tão simples.
Mas quero que saibas que, enquanto eu estiver aqui, tua presença será mantida viva. Usarei meus olhos para te mostrar que a vida continua. Que os netos ainda brincam, os filhos ainda sonham, e a família ainda floresce, porque tua semente foi forte.
E um dia, quando chegar a minha vez de entrar no último trem, irei ao teu encontro. Com prazer. Sem medo. Porque sei que será o momento de estarmos juntos novamente. Até lá, levo comigo a missão de manter o teu legado, de preservar tua memória e de ser os olhos que te permitem enxergar um mundo melhor.
Quero que saibas, meu amor, que estás em cada esquina do meu coração. Sempre.
O tempo passou, e, embora a saudade nunca tenha deixado de doer, ela se transformou em algo mais: um impulso para viver. A família cresceu. Os netos, agora adultos, carregavam em si um pouco do que ele representava. Havia força em cada gesto, em cada risada compartilhada, e, no fundo dos olhos de todos, a memória dele ainda brilhava como uma chama.
Certa noite, em um sonho, ele apareceu. Estava sorrindo, sereno, com os olhos que ela emprestara. Ele apontava para o céu, onde as estrelas cintilavam mais do que nunca. “Eu estou aqui,” ele disse, com uma voz que parecia vir de dentro do próprio coração dela.
Ao acordar, a paz que sentiu era diferente. Era como se, finalmente, tivesse entendido que ele nunca partira de verdade. Que ele continuaria ali, em cada pequena coisa: no riso dos netos, no brilho do sol, na brisa leve que lhe acariciava o rosto.
E foi assim que ela viveu o restante de seus dias, com os olhos abertos para o mundo, com o coração cheio de saudade, mas também de gratidão. No dia em que finalmente embarcou no último trem, ela sabia que ele estaria lá, esperando por ela, com aquele mesmo sorriso.
E assim, juntos novamente, os dois seguiram viagem, enquanto a família, aqui, mantinha viva a chama do amor que construíram. Um amor que jamais se apagaria.

Silvia Marchiori Buss
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