Da Dor à Poesia

 Era uma manhã fria de outono quando o inevitável aconteceu. Laura acordou com um sobressalto, um peso no peito que parecia anunciar o fim de um ciclo, de uma era. No canto do quarto, as cortinas dançavam suavemente ao som de uma brisa melancólica, enquanto os primeiros raios de sol penetravam a vidraça em um brilho opaco, quase triste.

Carlos, seu companheiro de quase cinco décadas, estava ali ao seu lado, mas não respirava. A pele dele tinha uma tonalidade pálida que Laura nunca vira antes, e seus olhos, sempre tão cheios de vida, estavam fechados em um último repouso sereno. Ela tocou-lhe o rosto com as pontas dos dedos, como se o gesto pudesse trazê-lo de volta. Mas a fria realidade a golpeou com força. Ele havia partido.

O luto veio como uma tempestade. Nos primeiros dias, Laura vagava pela casa como um fantasma, perdida em memórias que a assombravam e a confortavam ao mesmo tempo. Cada canto guardava um fragmento do que eles tinham sido juntos: a poltrona desgastada onde ele lia seus livros preferidos, o cheiro do café forte que preparavam todas as manhãs, o som de risos compartilhados que agora pareciam ecoar em um espaço vazio.

Mas foi em uma dessas manhãs solitárias que Laura encontrou o caderno. Era um volume de capa dura, marrom, escondido no fundo de uma gaveta. Ao abri-lo, encontrou poesias, escritas por Carlos, muitas delas sobre ela, sobre a vida que construíram juntos. Havia versos que falavam de seus olhos, de sua risada, da forma como ela arrumava os cabelos, mas também havia poemas sobre medo, sobre perda, como se ele pressentisse que a separação viria mais cedo do que esperavam.

“Quando eu partir, não chore pelo silêncio que deixo. Chore pelos sorrisos que não demos, pelos abraços que economizamos. Mas viva. Por nós dois.”

As palavras pareciam sussurrar diretamente ao coração de Laura. Com o caderno nas mãos, ela chorou pela primeira vez desde aquele dia terrível. Era um choro diferente, não apenas de dor, mas de gratidão. Carlos não estava mais ali fisicamente, mas ele a deixara uma herança de amor, transformada em palavras.

Inspirada pelas poesias de Carlos, Laura começou a escrever. No início, eram apenas fragmentos de pensamentos, rabiscos em pedaços de papel espalhados pela casa. Mas, aos poucos, os rabiscos se transformaram em frases, e as frases, em versos. Ela encontrou conforto nas palavras, como se pudesse dialogar com ele através do que escrevia.

Seus textos não eram apenas sobre saudade, mas também sobre os pequenos momentos de beleza que ela ainda conseguia encontrar: o canto de um pássaro no jardim, o cheiro de terra molhada após a chuva, o calor do sol em sua pele em uma tarde amena. Eram momentos que, antes, passariam despercebidos, mas que agora ganhavam um significado quase sagrado.

Um dia, ao reler suas próprias palavras, Laura percebeu que estava criando algo maior. Decidiu compartilhar seus textos com outras pessoas, acreditando que talvez suas experiências pudessem trazer conforto a alguém que também enfrentava o luto. Criou um blog, simples, onde publicava suas poesias e reflexões. Para sua surpresa, o blog começou a ganhar leitores. Pessoas de todos os lugares compartilhavam histórias semelhantes, criando uma comunidade que, como Laura, buscava transformação na dor.

E assim, o que começou como um grito silencioso de desespero tornou-se um canto de esperança. Laura percebeu que Carlos não estava realmente ausente. Ele vivia em cada palavra que ela escrevia, em cada memória que compartilhava, em cada vida que tocava com suas histórias.

Naquele mesmo caderno marrom, ela escreveu seu próprio poema, dedicado a ele:

“Quando me faltou teu toque, Teu sorriso, teu riso, eu descobri que tua ausência é também tua presença, e que o amor, em sua essência, nunca morre.”

Laura continuou a escrever, dia após dia, transformando sua dor em poesia, seu luto em arte. E, assim, encontrou uma nova forma de viver, sem Carlos, mas sempre com ele, em cada linha, em cada verso, em cada batida do coraçãoParte inferior do formulário

 

 

Silvia Marchiori Buss

 

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