A Última Viagem

Acordei sobressaltada, o coração batendo como um pássaro preso em gaiola. O peito arfava como se tivesse corrido um longo caminho, mas meus pés estavam imóveis sob os lençóis. O suor frio na nuca, os dedos tremendo levemente enquanto buscavam, no escuro, o contorno familiar do teu corpo ao meu lado.

Mas não estavas.

A cama parecia imensa, vazia de ti, como se o colchão tivesse se expandido num território sem fronteiras. Estendi a mão pelo lençol ainda morno, a esperança tola de que talvez tivesses apenas se virado de lado, perdido em sonhos. Mas a curva do teu ombro, o peso da tua respiração, o calor do teu corpo — nada estava ali.

Olhei ao redor. O quarto estava mergulhado em sombras densas, sufocantes. A janela quadrada não deixava passar um fio de luz, apenas um vazio cinzento e mudo. Nem a lua, nem as estrelas, nem mesmo o reflexo da rua lá fora. Era como se o mundo inteiro tivesse se fechado contigo.

Meu amor, onde estás?

Foi então que lembrei.

Tu partiste. Para a tua última viagem. Uma viagem solitária, sem passagens de volta, sem malas, sem promessas de chegada. Partiste enquanto eu ainda estava aqui, envolta no cheiro dos teus últimos dias, nos lençóis que guardam o calor que já não tens.

E agora? Como segues sem mim? Sentes frio, sentes medo? Nunca viajaste sem segurar minha mão, sem sussurrar promessas de regresso. Como foste sozinho dessa vez?

Sinto o ar pesar dentro do peito. Meus olhos correm pelas paredes brancas, pelas sombras imutáveis que teimam em não se mover. Sempre foste tu quem acalmava minha inquietação, quem puxava minha mão no escuro e dizia: "Estou aqui". Mas agora, e se fores tu quem sente medo? E se, na imensidão desse novo desconhecido, tu me busques como eu te busco agora?

Meu amor, me responde. Estás bem?

Fecho os olhos, tentando encontrar-te no espaço onde ainda existimos juntos, onde tu ainda vives, onde teu riso não é memória, mas presente. Meus dedos apertam o travesseiro onde tua cabeça descansava. O cheiro ainda está ali, tênue, como a última nota de uma música que se esvai no ar.

Escuto o silêncio.

E, no meio desse vácuo, uma brisa leve roça minha pele. Um murmúrio sem palavras, um sussurro que não sei se vem de dentro ou de algum lugar além da noite.

É a tua voz ou é apenas a saudade inventando ecos?

Meu amor, estás aqui?

Acho que sim.

Não do jeito que eu queria, não do jeito que eu preciso. Mas de algum jeito.

No vazio do quarto, na brisa que toca meu rosto, no silêncio que de repente não é tão mudo.

De um jeito que não posso tocar, mas posso sentir.

E, talvez, seja assim que as viagens solitárias se tornam um pouco menos solitárias.

Silvia Marchiori Buss

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