Voltando para o Ninho

Há 80 anos, nasceu Arthur, fruto de um relacionamento que unia conveniência e aparências mais do que amor. Sua mãe, Helena, uma mulher de espírito livre presa às amarras de um casamento arranjado, recebia a notícia da gravidez com um misto de angústia e resignação. Naquele ventre, que deveria ser um ninho acolhedor, Arthur crescia cercado por rejeição e expectativas impostas antes mesmo de abrir os olhos para o mundo.

Quando finalmente veio ao mundo, Arthur não encontrou os braços ternos da mãe, mas sim o colo prático e eficiente de uma babá. Assim se desenrolou sua infância: casa cheia de empregados, sorrisos calculados, e a ausência constante de Helena, que parecia fugir daquilo que ele simbolizava. Ainda assim, Arthur cresceu, moldado mais pela falta do que pelo excesso de atenção.

Na juventude, Arthur decidiu que sua vida seria uma odisseia pela busca do pertencimento. Mergulhou de cabeça nos estudos, tornou-se um profissional brilhante, acumulou fortuna e formou uma família digna de um retrato na parede. Casou-se com Cecília, uma mulher de coração generoso, com quem teve três filhos. Em sua casa, ele zelava para que nunca faltassem abraços e palavras de incentivo. Mas, mesmo cercado por tanto amor, Arthur sentia uma lacuna, como se vivesse a vida em terceira pessoa, sempre do lado de fora observando os outros experimentarem a plenitude que ele almejava.

O tempo passou. Os filhos cresceram e seguiram seus caminhos. Cecília, sua grande companheira, partiu antes dele, deixando um silêncio que se espalhava pela casa. Foi então que, aos 80 anos, Arthur recebeu o diagnóstico que selava seu destino: uma doença implacável o levaria em poucos meses. Diante da finitude, algo mudou dentro dele. Pela primeira vez, Arthur não buscava explicações ou conquistas; ele buscava paz.

Em suas reflexões, veio à tona a ideia de "voltar para o ninho". Um conceito que, no início, parecia abstrato, mas logo ganhou forma. Arthur começou a se despedir da vida de maneira intencional. Reviveu memórias, perdoou as dores do passado e aceitou as imperfeições que tanto o assombraram. Entre as imagens que vinham à mente, estava sua mãe, Helena, que já não estava entre os vivos. Pela primeira vez, ele sentia uma profunda empatia por ela e por suas próprias limitações.

No último mês de sua vida, Arthur teve um sonho que parecia real...Sonho ou devaneio...Agora, ele era um feto novamente, e Helena o esperava de braços abertos, sorrindo. Não havia rejeição, apenas acolhimento. Esse sonho trouxe-lhe uma serenidade que nunca havia experimentado. Ele percebeu que "voltar para o ninho" era retornar à essência, ao início de tudo, onde não há julgamento, apenas existência pura.

Na noite em que Arthur partiu, estava em sua cama, cercado pelas fotos da família, com uma leve expressão de sorrisos nos lábios. Sentiu-se envolvido por uma sensação de calor e acolhimento, como se estivesse voltando para o útero materno, desta vez bem-vindo e amado. Quando seu último suspiro se foi, a casa permaneceu em silêncio, mas não havia tristeza. Arthur finalmente encontrara o pertencimento que buscou por toda a vida: a paz de saber que, no fim, tudo retorna ao ninho.


Silvia Marchiori Buss

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