Sorriso de Marta
Na cidade de Áurea do Norte, Marta Resendes era o tipo de mulher que sabia tudo sobre tudo — e um pouco mais. A enciclopédia ambulante da cidade conhecia o passado das famílias, as traições encobertas, as fraudes nos comércios e até as senhas de Wi-Fi dos estabelecimentos locais. Em Áurea, ninguém sobrevivia sem passar, mais cedo ou mais tarde, pelo crivo de Marta.
Aos 52 anos, ela não era rica, bonita ou simpática, mas tinha algo que poucos possuíam: o controle absoluto da informação.
Como fazia todas as manhãs, Marta ocupava a mesa central da padaria, seu “escritório informal”. Ali, em meio ao aroma de pão fresco e café passado na hora, ela oferecia sua sabedoria como quem distribui bênçãos.
— Marta, você sabe quem anda falando mal do meu filho na escola? — Dona Iraci perguntou, aflita, enquanto segurava seu pacote de sonhos.
Marta ergueu os olhos do caderno de capa grossa, repleto de anotações indecifráveis, e com um amedrontador sorriso de canto de boca respondeu:
— Iraci, querida, não vou mencionar nomes... — Marta fez uma pausa calculada. — Mas digamos que uma certa mãe do grupo de WhatsApp anda comentando que, talvez, você devesse pagar a rifa da escola antes de exigir respeito.
— Como assim? Quem foi? — Iraci cruzou os braços.
— Só digo que, se você revisar as mensagens do grupo, talvez encontre a resposta. — Marta deu um gole no café e finalizou com um sorriso enigmático.
Iraci saiu bufando, e Marta mordeu seu pão de queijo com satisfação.
Enquanto Iraci saía, Jorge, o mecânico da cidade, sentou-se à mesa sem cerimônias.
— Marta, meu carro anda engasgando. O que você sabe sobre isso? — Ele parecia desconfiado, como quem já esperava a resposta.
Marta inclinou-se ligeiramente, como uma cúmplice em um segredo sombrio.
— Jorge, querido, você tem abastecido no posto do Arlindo, não tem?
— E o que tem o Arlindo? — Jorge perguntou, estreitando os olhos.
— Digamos que ele é mais generoso com o álcool do que deveria. O combustível dele tem mais água do que o açude do Cerrado.
Jorge bufou, levantou-se e saiu, resmungando que precisava dar uma “visitinha” ao posto.
Logo após Jorge, foi a vez de Dona Mirtes, dona do mercado local, se sentar. No escritório improvisado. Seu semblante estava tenso.
— Marta, você anda dizendo por aí que meu mercado pesa menos do que devia? Perguntou na cara dura a outra fofoqueira de Áurea do Norte, mas que também se intimidava diante do sorriso de canto de boca da fofoqueira mor da cidade.
— Eu? — Marta arqueou as sobrancelhas, fingindo inocência. — Não sou eu quem diz, Mirtes, são as balanças. Talvez valha a pena verificar se estão realmente calibradas.
— As balanças estão perfeitas! — Mirtes rebateu.
— Ah, então ótimo! Só que, curiosamente, o quilo de arroz que você vende pesa 800 gramas quando chega à casa de Dona Celina. — Marta sorriu. — Talvez a concorrência esteja de olho nisso.
Mirtes saiu furiosa, mas com uma nota mental para revisar o equipamento antes que sua fama fosse ainda mais prejudicada.
No auge da manhã, já pelo terceiro cafezinho com croissant – tudo de graça – tal era o medo do padeiro diante de Dona Marta, a mulher recebeu um visitante que raramente aparecia na padaria: o vereador Afonso. Ele chegou com um sorriso confiante e um café na mão.
— Marta, eu precisava falar com você. — Ele puxou uma cadeira.
— Fico honrada, Afonso. — Marta apoiou o queixo na mão, claramente interessada.
— Andam dizendo que você espalha boatos sobre as finanças da prefeitura. Isso não é justo, não acha?
Marta riu baixinho.
— Boatos? — Ela franziu o cenho. — Afonso, você quer dizer o dinheiro que gastou naquela cabana de pesca?
O sorriso do vereador sumiu.
— Não sei do que você está falando.
— Não sabe? — Marta inclinou-se, sussurrando. — A cidade sabe que sua “cabana” tem piscina aquecida e churrasqueira elétrica. E as notas fiscais? Bem, elas são curiosamente maiores do que deveriam.
Afonso engoliu seco, levantou-se sem dar mais explicações e saiu às pressas.
Ainda não era meio-dia quando Lurdes, com seus cabelos curtos e olhar duro, parou diante da mesa de Marta.
— Marta, você sabe se o Toninho anda aprontando?
— Por que você acha isso, Lurdes? — Marta perguntou, fingindo neutralidade.
— Não sei... Ele chega tarde, sempre com desculpas esfarrapadas.
Marta suspirou.
— Lurdes, não queria ser eu a te dizer isso... — Marta fez uma pausa dramática. — Mas ele tem comprado flores. Muitas flores.
— Pra quem? — Lurdes estreitou os olhos.
— Pra você, não são. Já verificou se alguma colega de trabalho dele anda com vasos novos na mesa?
Lurdes saiu em silêncio, o rosto endurecido.
Dia após dia, Marta Resendes acumulava histórias e confrontos como quem coleciona troféus. Em Áurea do Norte, ela era simultaneamente temida e adorada. Mas, no fundo, Marta fazia tudo isso por um motivo simples: manter-se relevante.
Como ela mesma dizia, com um sorriso travesso:
— Saber é poder. E saber demais é pura diversão.
Silvia Marchiori Buss
Aos 52 anos, ela não era rica, bonita ou simpática, mas tinha algo que poucos possuíam: o controle absoluto da informação.
Como fazia todas as manhãs, Marta ocupava a mesa central da padaria, seu “escritório informal”. Ali, em meio ao aroma de pão fresco e café passado na hora, ela oferecia sua sabedoria como quem distribui bênçãos.
— Marta, você sabe quem anda falando mal do meu filho na escola? — Dona Iraci perguntou, aflita, enquanto segurava seu pacote de sonhos.
Marta ergueu os olhos do caderno de capa grossa, repleto de anotações indecifráveis, e com um amedrontador sorriso de canto de boca respondeu:
— Iraci, querida, não vou mencionar nomes... — Marta fez uma pausa calculada. — Mas digamos que uma certa mãe do grupo de WhatsApp anda comentando que, talvez, você devesse pagar a rifa da escola antes de exigir respeito.
— Como assim? Quem foi? — Iraci cruzou os braços.
— Só digo que, se você revisar as mensagens do grupo, talvez encontre a resposta. — Marta deu um gole no café e finalizou com um sorriso enigmático.
Iraci saiu bufando, e Marta mordeu seu pão de queijo com satisfação.
Enquanto Iraci saía, Jorge, o mecânico da cidade, sentou-se à mesa sem cerimônias.
— Marta, meu carro anda engasgando. O que você sabe sobre isso? — Ele parecia desconfiado, como quem já esperava a resposta.
Marta inclinou-se ligeiramente, como uma cúmplice em um segredo sombrio.
— Jorge, querido, você tem abastecido no posto do Arlindo, não tem?
— E o que tem o Arlindo? — Jorge perguntou, estreitando os olhos.
— Digamos que ele é mais generoso com o álcool do que deveria. O combustível dele tem mais água do que o açude do Cerrado.
Jorge bufou, levantou-se e saiu, resmungando que precisava dar uma “visitinha” ao posto.
Logo após Jorge, foi a vez de Dona Mirtes, dona do mercado local, se sentar. No escritório improvisado. Seu semblante estava tenso.
— Marta, você anda dizendo por aí que meu mercado pesa menos do que devia? Perguntou na cara dura a outra fofoqueira de Áurea do Norte, mas que também se intimidava diante do sorriso de canto de boca da fofoqueira mor da cidade.
— Eu? — Marta arqueou as sobrancelhas, fingindo inocência. — Não sou eu quem diz, Mirtes, são as balanças. Talvez valha a pena verificar se estão realmente calibradas.
— As balanças estão perfeitas! — Mirtes rebateu.
— Ah, então ótimo! Só que, curiosamente, o quilo de arroz que você vende pesa 800 gramas quando chega à casa de Dona Celina. — Marta sorriu. — Talvez a concorrência esteja de olho nisso.
Mirtes saiu furiosa, mas com uma nota mental para revisar o equipamento antes que sua fama fosse ainda mais prejudicada.
No auge da manhã, já pelo terceiro cafezinho com croissant – tudo de graça – tal era o medo do padeiro diante de Dona Marta, a mulher recebeu um visitante que raramente aparecia na padaria: o vereador Afonso. Ele chegou com um sorriso confiante e um café na mão.
— Marta, eu precisava falar com você. — Ele puxou uma cadeira.
— Fico honrada, Afonso. — Marta apoiou o queixo na mão, claramente interessada.
— Andam dizendo que você espalha boatos sobre as finanças da prefeitura. Isso não é justo, não acha?
Marta riu baixinho.
— Boatos? — Ela franziu o cenho. — Afonso, você quer dizer o dinheiro que gastou naquela cabana de pesca?
O sorriso do vereador sumiu.
— Não sei do que você está falando.
— Não sabe? — Marta inclinou-se, sussurrando. — A cidade sabe que sua “cabana” tem piscina aquecida e churrasqueira elétrica. E as notas fiscais? Bem, elas são curiosamente maiores do que deveriam.
Afonso engoliu seco, levantou-se sem dar mais explicações e saiu às pressas.
Ainda não era meio-dia quando Lurdes, com seus cabelos curtos e olhar duro, parou diante da mesa de Marta.
— Marta, você sabe se o Toninho anda aprontando?
— Por que você acha isso, Lurdes? — Marta perguntou, fingindo neutralidade.
— Não sei... Ele chega tarde, sempre com desculpas esfarrapadas.
Marta suspirou.
— Lurdes, não queria ser eu a te dizer isso... — Marta fez uma pausa dramática. — Mas ele tem comprado flores. Muitas flores.
— Pra quem? — Lurdes estreitou os olhos.
— Pra você, não são. Já verificou se alguma colega de trabalho dele anda com vasos novos na mesa?
Lurdes saiu em silêncio, o rosto endurecido.
Dia após dia, Marta Resendes acumulava histórias e confrontos como quem coleciona troféus. Em Áurea do Norte, ela era simultaneamente temida e adorada. Mas, no fundo, Marta fazia tudo isso por um motivo simples: manter-se relevante.
Como ela mesma dizia, com um sorriso travesso:
— Saber é poder. E saber demais é pura diversão.
Silvia Marchiori Buss

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