Sob o Céu do Jardim

O batizado de Maria Clara acontecia em uma tarde ensolarada, no jardim da casa da família. Flores coloridas enfeitavam o espaço, o perfume de lavanda e rosas misturava-se ao cheiro dos doces finamente dispostos na mesa. Todos pareciam felizes, unidos pela celebração daquele momento único. A mãe, Ana, irradiava felicidade ao lado do marido, Eduardo, enquanto segurava Maria Clara nos braços. Amigos e familiares circulavam, brindando, sorrindo, eternizando o dia em fotos.

Tudo transcorria como um sonho. No entanto, em meio aos sorrisos, um clima de tensão imperceptível pairava no ar. Ana sentia, embora não soubesse explicar, como se algo pudesse mudar a qualquer momento. Ela ignorou esse pensamento, atribuindo-o ao cansaço da organização do evento.

Então, o momento chegou.

No meio das risadas e conversas, os portões do jardim se abriram com um ranger. Todos voltaram os olhos para a mulher que entrava. Ela tinha o semblante fechado, os passos firmes. No colo, segurava uma criança de cerca de dois anos, que dormia tranquilamente. A conversa cessou; todos prenderam a respiração, como se o ar tivesse sido roubado.

Ana foi a primeira a reagir, com uma leve confusão no rosto. Quem era aquela mulher? O que fazia ali?

A mulher se aproximou, cruzando o jardim com determinação. Seus olhos pousaram diretamente em Eduardo, que agora estava pálido como o linho da toalha da mesa. Ele tentou se mover, mas seus pés pareciam presos ao chão. A mulher parou a poucos passos de distância e, com a voz trêmula, mas cheia de coragem, disse:

— Eduardo, acho que você esqueceu de convidar a mim e ao nosso filho para a festa.

O silêncio no jardim era ensurdecedor. Todos os olhares estavam fixos nos dois. Ana, perplexa, apertava Maria Clara com mais força no colo, como se isso pudesse protegê-la do que estava por vir.

— O que você está dizendo? — Ana perguntou, sua voz saindo mais fraca do que pretendia.

A mulher olhou para ela com compaixão misturada à tristeza.

— Estou dizendo, senhora, que Eduardo é o pai do meu filho. E, se ele tem direito de batizar Maria Clara, também tem a obrigação de reconhecer o Miguel.

Eduardo deu um passo à frente, tentando dizer algo, mas as palavras não saíam. Ana, tremendo, colocou Maria Clara nos braços da avó e enfrentou o marido.

— É verdade? — ela perguntou, quase num sussurro. — Eduardo, me diz que isso é um mal-entendido.

Ele abaixou a cabeça. Não precisou responder. O silêncio dele foi mais devastador do que qualquer palavra.

A mulher, sentindo a dor de Ana, não quis prolongar aquele confronto.

— Não vim aqui para destruir nada, nem para causar escândalo. Só quero que meu filho tenha o pai que merece. E que você, Eduardo, seja homem o suficiente para lidar com as consequências das suas escolhas.

Ela deu meia-volta e começou a sair do jardim, mas não sem antes lançar um último olhar, cheio de mágoa, para Eduardo.

Ana desabou no chão, como se a alma tivesse sido arrancada do corpo. Eduardo tentou segurá-la, mas ela o empurrou com força.

— Não encoste em mim! — gritou, a voz carregada de dor e raiva.

Os convidados, paralisados, observavam tudo. O jardim, antes repleto de alegria, agora era palco de uma tragédia familiar. As flores já não pareciam tão bonitas, e o céu, antes azul e límpido, parecia se fechar em nuvens pesadas.

Ana levantou-se com dificuldade, pegou Maria Clara e entrou na casa, deixando Eduardo parado, perdido entre o arrependimento e a vergonha. A festa estava acabada, e o que restava era um silêncio profundo que ecoaria por muito tempo.

A partir daquele dia, a vida de todos mudou. Ana precisaria reconstruir-se, decidir se perdoaria Eduardo ou se recomeçaria sem ele. Eduardo teria que lidar com seus erros e suas consequências. E aquela mulher, cujo nome Ana nem sabia, levaria consigo a força de uma mãe que luta por justiça para o filho.

Sob o céu do jardim, nada mais seria como antes.



Silvia Marchiori Buss

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