Procurando pelos Domingos

Havia algo definitivo nos domingos desde que Bela se viu sozinha. Um silêncio espesso pairava no ar, pesando como a neblina das manhãs de inverno. Era o dia em que o vazio ocupava todos os cantos da casa e do coração, lembrando-a, sem piedade, de tudo o que havia perdido.

Domingos costumavam ser os dias preferidos dela e de Miguel. Ele fazia questão de preparar o café da manhã com panquecas, um ritual tão simples quanto especial. Depois, passeavam pelo mercado da cidade, comprando frutas frescas, flores para a semana e, sempre, um pequeno mimo inútil que acabava esquecido em algum canto da casa. À tarde, o sofá os acolhia enquanto liam ou assistiam a filmes antigos. O mundo parecia suspender sua pressa aos domingos.

Agora, os domingos eram outra coisa. Não havia panquecas, nem flores, nem a risada de Miguel preenchendo o espaço entre uma conversa e outra. Ela sabia que não podia continuar assim. Perder um amor era como perder uma parte de si, mas deixar os domingos se perderem junto parecia uma segunda morte.

Naquela manhã, Bela tomou uma decisão: iria resgatar os seus domingos. Não sabia como, nem onde começar, mas sabia que precisava tentar.

Começou pela cozinha. Decidiu preparar as panquecas sozinha, algo que nunca havia feito antes. A receita estava rabiscada num pedaço de papel na gaveta de receitas, com a caligrafia inconfundível de Miguel. Ela seguiu cada passo com cuidado, como se fosse uma cerimônia. Quando terminou, a primeira garfada foi agridoce – uma mistura de sabor, saudade e uma inesperada sensação de vitória.

Depois, colocou um vestido floral, o mesmo que Miguel adorava, e saiu para o mercado. As ruas pareciam diferentes, como se as visse pela primeira vez. No mercado, comprou flores – não as preferidas dele, mas as que chamaram sua atenção naquele momento: girassóis vibrantes. Também escolheu frutas e, como um pequeno gesto de teimosia, um bule pintado à mão que a fez sorrir, já que sabia que ele se perderia em um canto qualquer da casa.

No caminho de volta para casa, passou por uma praça onde um pequeno grupo tocava música. Parou para ouvir. O som do violão, misturado às vozes das crianças que corriam ao redor, trouxe uma estranha paz. Sentou-se em um banco próximo e deixou a música preencher o espaço vazio dentro dela.

Quando o sol começou a descer no horizonte, Bela voltou para casa. Arranjou os girassóis em um vaso e colocou o bule novo sobre a mesa. Fez uma xícara de chá e sentou-se no sofá com um livro, algo que não fazia desde que Miguel se fora.

A casa ainda estava silenciosa, mas o silêncio parecia menos ameaçador. Era como se aquele domingo fosse um convite para começar de novo.

Nos domingos seguintes, Bela continuou sua busca. Não eram todos fáceis. Alguns traziam de volta a saudade, como ondas que a pegavam desprevenida. Mas ela descobriu que, ao reconstruir seus domingos, estava, de alguma forma, reconstruindo a si mesma.

E assim, aos poucos, Bela foi encontrando novos significados. Não eram os domingos de antes, mas eram seus. E isso bastava.


Silvia Marchiori Buss

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