Posso Chamar Você?

Joaquim acordava todos os dias com o peso de um vazio que não sabia nomear. Desde que Helena se fora, o mundo parecia ter perdido suas cores. Eles tinham compartilhado uma vida inteira – risos, silêncios, brigas e reconciliações, sonhos realizados e outros tantos adiados. Agora, ele se via sozinho, cercado por móveis e objetos que carregavam lembranças demais e um silêncio que lhe gritava ao ouvido.

Ele não sabia mais como atravessar os dias. O café parecia amargo, o jornal que lia há décadas já não fazia sentido, e o relógio na parede era um lembrete cruel de que o tempo seguia sem piedade. Os ponteiros avançavam, mas Joaquim parecia parado em um instante congelado – o momento em que Helena partira.

Uma noite, sem conseguir dormir, ele resolveu vasculhar o sótão, um lugar onde Helena costumava guardar coisas que chamava de “relíquias de vida”. Entre caixas de fotos, cartas amareladas e álbuns de viagem, Joaquim encontrou uma pequena gravação em um antigo gravador. Tremendo, pressionou o botão de play.

A voz de Helena encheu o quarto como um abraço. Era uma mensagem antiga, gravada sem que ele soubesse. Ela dizia:

"Se você estiver ouvindo isso, meu amor, talvez eu já não esteja ao seu lado. Mas quero que saiba que você nunca estará sozinho. A vida é difícil, sim, mas também é cheia de segundas chances, de novos começos. Quando se sentir perdido, procure as estrelas no céu. Sempre que olhar para elas, pode me chamar. Eu estarei lá."

As lágrimas vieram antes que ele pudesse segurá-las. "Posso chamar você, Helena?", ele murmurou, olhando para o teto, como se as palavras pudessem atravessar o tempo e o espaço. Ele fechou os olhos e tentou lembrar de sua voz ao vivo, do timbre exato, mas era como tentar segurar água nas mãos.

Naquela noite, Joaquim saiu ao quintal pela primeira vez desde o funeral. O céu estava limpo, e ele viu uma constelação que Helena amava – a que ela dizia que formava um sorriso. Ele sentiu uma brisa tocar seu rosto, como um carinho suave. Não era suficiente para preencher o vazio, mas era o suficiente para ele dar um passo. Ou será que ele apenas se iludia com essa sensação passageira?

Nos dias seguintes, Joaquim começou a caminhar pelo bairro. Conheceu pessoas novas – a senhora do mercado que sempre tinha uma piada na ponta da língua, o jovem que tocava violão na praça, e até mesmo uma menina que lhe ofereceu um girassol sem motivo algum. Pequenos fragmentos de vida que o puxavam para fora de si mesmo, mas que, no silêncio das noites, pareciam tão frágeis quanto o vento.

Ele se perguntava: isso era o que Helena queria para ele? Que carregasse a dor e a saudade como um fardo silencioso, mas seguisse vivendo? Ou talvez fosse uma escolha sua permanecer assim, preso a lembranças que não sabia soltar? Ele escolheu isso, talvez, ao guardar tantas relíquias, ao não mudar nada na casa, ao manter o porta-retrato dela ao lado da cama. Ele queria seguir em frente ou temia esquecer?

Certa noite, olhando para o céu, ele repetiu a pergunta que agora lhe parecia um ritual: "Posso chamar você, Helena?" A resposta não veio, nem em brisa, nem em constelação. Apenas o silêncio – pesado, cortante. Era suficiente para viver assim? Ou ele precisava mesmo aprender a deixar ir? Ele se perguntava se, no fundo, queria saber a resposta.

Joaquim voltou para dentro. O relógio na parede seguia seu curso, os móveis e objetos continuavam no mesmo lugar , até o pingo da torneira da cozinha não havia mudado seu som...E ele?



Silvia Marchiori Buss


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