Os " Viciados" em Controlar o Futuro

Existe um tipo peculiar de vício que raramente encontra nome nos compêndios médicos ou nas pautas dos grupos de apoio, mas que está lá, corroendo a serenidade de quem o carrega: o vício de controlar o futuro. Não são poucos os que se enquadram nessa categoria – e, ouso dizer, é provável que todos, em algum momento, já tenhamos sentido a irresistível compulsão de projetar, prever, planejar e até ditar os rumos do que sequer aconteceu.

O ser humano é pretensioso. Dotado de uma mente complexa, ele se apaixona pela ideia de que pode ter as rédeas do tempo e da vida. No entanto, o futuro é como um rio indomável: não importa o quanto tentemos represá-lo ou guiá-lo, ele sempre encontra seus próprios caminhos. E quando essa realidade se impõe, o corpo reage com uma descarga de adrenalina negativa – a frustração, o medo e, às vezes, o desespero, capazes de nos autodestruir.

Eu me incluo nessa lista. Confesso que sofro quando a vida, teimosa, insiste em escapar do script que imaginei. A angústia vem como uma velha conhecida, acompanhada do desejo infantil de que as coisas “voltem para as minhas mãos”. É um ciclo vicioso: tentar prever, falhar, sofrer.

Mas, ao mesmo tempo, é nesses momentos que reconheço a urgência de cultivar algo maior do que o controle: a fé. Fé no universo, na dança das coincidências, nos acasos que não compreendemos de imediato, mas que, mais tarde, revelam sua perfeição.

Por isso, estabeleci um exercício diário. Não é fácil, mas é libertador: ao invés de tentar controlar o futuro como um todo, decidi focar apenas nos próximos dez minutos. Um intervalo pequeno, mas suficiente para manter os pés no chão e o coração leve. Nestes breves momentos, dou o melhor de mim – escrevo, respiro, sorrio ou simplesmente me permito existir.

Hoje, venci. Não porque conquistei tudo que queria, mas porque soltei as rédeas e confiei no fluxo. Talvez amanhã a luta se reinicie, mas, por ora, celebro a pequena vitória. Afinal, para nós, os "viciados", controlar só os próximos dez minutos já é um feito hercúleo. E, quem sabe, o segredo esteja exatamente aí: em viver o presente como quem descobre o antídoto para a inquietação da alma.


Silvia Marchiori Buss


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