O Mar Como Meu Anfitrião de Vida
Nasci longe do mar. Para onde quer que eu olhasse, era o horizonte de campos e morros que me acolhia, vastos e ondulados, quase como se fossem ondas de terra. Meu universo era moldado pelo vento que sussurrava entre as folhas, pelo aroma de terra molhada e pela simplicidade das paisagens que pareciam abraçar a alma com sua quietude. Mas algo em mim ansiava por mais. Uma vastidão que eu não sabia nomear, mas que me habitava desde sempre.
Meu primeiro encontro com o oceano foi tardio. Eu tinha quatorze anos quando o vi pela primeira vez, em uma viagem que prometia aventuras e revelou algo maior: um chamado que eu ainda não compreendia.
Lembro-me daquele momento como se estivesse acontecendo agora. A brisa salgada tocou meu rosto com uma intimidade inesperada, quase como se conhecesse cada recanto de quem eu era. O som das ondas ecoou no meu peito como um coração que sempre estivera ali, esperando para ser reconhecido. E a vastidão azul diante de mim parecia mais um convite do que um simples espetáculo da natureza. “Bem-vinda,” eu ouvi. Não sei se foi o vento ou algo dentro de mim, mas aceitei sem reservas.
A vida, porém, tinha outros planos — ou talvez fosse eu que ainda não compreendia os caminhos que ela propunha. Passei os anos seguintes mergulhada nas rotinas de cidade, nos compromissos incessantes, nos amores que vinham e partiam, e nos desafios que chegam sem aviso. O mar, porém, nunca me abandonou. Ele se fazia presente de forma sutil: nos sonhos que me deixavam com o gosto salgado nos lábios ao despertar, nas imagens aleatórias que surgiam em revistas folheadas ao acaso, nas palavras de um estranho que mencionava uma praia distante. Ele esperava. Sempre ali, silencioso, mas constante, como uma promessa.
Foi apenas na maturidade que o reencontrei. Depois de uma série de perdas que me deixaram desnorteada, como uma jangada à deriva, fui atraída para ele. Não como uma fuga, mas como quem busca um porto seguro. Mais do que um lugar, ele se revelou um anfitrião generoso, pronto para receber minhas dores e devolver serenidade.
Naquela praia deserta, sentei-me por horas, talvez dias, deixando que cada onda me trouxesse uma lição. Descobri que a impermanência não é um inimigo, mas a essência da vida. Assim como as marés que sobem e descem, a existência carrega ciclos inevitáveis de plenitude e escassez, de encontro e despedida. E, acima de tudo, aprendi que a vastidão do mar não é para ser dominada, mas admirada, aceita.
Ao longo do tempo, o mar se tornou meu companheiro constante. Faço questão de morar perto dele, de ouvir suas histórias a cada amanhecer. Quando escrevo, ele é a minha inspiração; quando sonho, ele é o cenário. De certa forma, ele assumiu o papel de anfitrião da minha própria existência, mostrando-me que é possível viver com profundidade e leveza ao mesmo tempo. Ele me ensina a aceitar a vida como ela é: em movimento constante, imprevisível, mas sempre bela em sua imensidão.
Hoje, entendo que tudo é movimento. Olhar para as ondas é como observar a própria vida em sua essência mais pura. Mesmo diante das perdas e incertezas, a vida sempre encontra um jeito de recomeçar. Porque, assim como o mar, ela nunca está estática. Ela é dinâmica, infinita em suas possibilidades, e, ao me permitir ser sua hóspede, encontrei, enfim, o meu lugar no mundo.
O mar é mais do que paisagem; ele é um mestre silencioso, um abrigo, um guia. E eu, sua eterna aprendiz, navego agora com a certeza de que é ele quem me acolhe, me desafia e me inspira a viver com toda a intensidade que a vida merece.
Meu primeiro encontro com o oceano foi tardio. Eu tinha quatorze anos quando o vi pela primeira vez, em uma viagem que prometia aventuras e revelou algo maior: um chamado que eu ainda não compreendia.
Lembro-me daquele momento como se estivesse acontecendo agora. A brisa salgada tocou meu rosto com uma intimidade inesperada, quase como se conhecesse cada recanto de quem eu era. O som das ondas ecoou no meu peito como um coração que sempre estivera ali, esperando para ser reconhecido. E a vastidão azul diante de mim parecia mais um convite do que um simples espetáculo da natureza. “Bem-vinda,” eu ouvi. Não sei se foi o vento ou algo dentro de mim, mas aceitei sem reservas.
A vida, porém, tinha outros planos — ou talvez fosse eu que ainda não compreendia os caminhos que ela propunha. Passei os anos seguintes mergulhada nas rotinas de cidade, nos compromissos incessantes, nos amores que vinham e partiam, e nos desafios que chegam sem aviso. O mar, porém, nunca me abandonou. Ele se fazia presente de forma sutil: nos sonhos que me deixavam com o gosto salgado nos lábios ao despertar, nas imagens aleatórias que surgiam em revistas folheadas ao acaso, nas palavras de um estranho que mencionava uma praia distante. Ele esperava. Sempre ali, silencioso, mas constante, como uma promessa.
Foi apenas na maturidade que o reencontrei. Depois de uma série de perdas que me deixaram desnorteada, como uma jangada à deriva, fui atraída para ele. Não como uma fuga, mas como quem busca um porto seguro. Mais do que um lugar, ele se revelou um anfitrião generoso, pronto para receber minhas dores e devolver serenidade.
Naquela praia deserta, sentei-me por horas, talvez dias, deixando que cada onda me trouxesse uma lição. Descobri que a impermanência não é um inimigo, mas a essência da vida. Assim como as marés que sobem e descem, a existência carrega ciclos inevitáveis de plenitude e escassez, de encontro e despedida. E, acima de tudo, aprendi que a vastidão do mar não é para ser dominada, mas admirada, aceita.
Ao longo do tempo, o mar se tornou meu companheiro constante. Faço questão de morar perto dele, de ouvir suas histórias a cada amanhecer. Quando escrevo, ele é a minha inspiração; quando sonho, ele é o cenário. De certa forma, ele assumiu o papel de anfitrião da minha própria existência, mostrando-me que é possível viver com profundidade e leveza ao mesmo tempo. Ele me ensina a aceitar a vida como ela é: em movimento constante, imprevisível, mas sempre bela em sua imensidão.
Hoje, entendo que tudo é movimento. Olhar para as ondas é como observar a própria vida em sua essência mais pura. Mesmo diante das perdas e incertezas, a vida sempre encontra um jeito de recomeçar. Porque, assim como o mar, ela nunca está estática. Ela é dinâmica, infinita em suas possibilidades, e, ao me permitir ser sua hóspede, encontrei, enfim, o meu lugar no mundo.
O mar é mais do que paisagem; ele é um mestre silencioso, um abrigo, um guia. E eu, sua eterna aprendiz, navego agora com a certeza de que é ele quem me acolhe, me desafia e me inspira a viver com toda a intensidade que a vida merece.
Silvia Marchiori Buss

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