Num Saco de Pipoca
Simoninha era uma dona de casa de meia-idade. Bonitinha, mas nem tanto; magrinha, mas nem tanto; boa mãe, mas nem tanto; boa esposa, mas nem tanto. Na verdade, ela sabia mesmo era enganar. Enganar muito bem.
Se tinha uma coisa que Simoninha achava que era muito boa, era gostar da sétima arte. Sabia tudo sobre cinema! Quer dizer, pensando bem, nem tanto assim, já que gostava de tudo que passava no escurinho do cinema. Comédia romântica, terror, drama, desenho animado… ela não fazia cerimônia. Entrava em qualquer história com a mesma paixão de uma adolescente no primeiro crush.
O cinema era seu paraíso particular. Simoninha se esbaldava, viajando nas histórias e, claro, saboreando sua paixão incondicional: pipoca. Não era qualquer pipoca. Era o pacote GG, meio doce, meio salgada, que ela carregava como um troféu. E, se por azar caía um grãozinho pelo caminho, Simoninha ficava em choque! Caminhava pela sala com ares de rainha, até se acomodar no assento, pipoca no colo, pronta para deixar o filme rodar.
Ela frequentava as sessões só à tarde. Não gostava de chegar em casa tarde da noite. "Sete horas, no máximo!" – mania de Simoninha. E assim, entre pipocas e filmes, a vida transcorria pacífica... até a fatídica noite de temporal.
Era uma daquelas noites que mais pareciam cena de filme de terror: raios, trovões, vento uivando e uma chuva que parecia vir de uma mangueira celestial. No meio daquilo tudo, a barriga de Simoninha entrou em cena, protagonizando um espetáculo próprio. O barulho que vinha de dentro dela competia com os trovões. Era quase Dolby Surround.
De manhã, lá estava ela, sendo levada ao hospital, com uma dor que parecia querer ganhar o Oscar de Melhor Dor Abdominal. O caminho até o hospital era devastador – árvores no chão, telhados arrancados – e o diagnóstico que recebeu foi ainda pior. Devastador mesmo.
Dia após dia, Simoninha foi definhando. Quando percebeu que o roteiro de sua vida estava nos créditos finais, fez um pedido peculiar aos filhos:
– Quero ser cremada e que minhas cinzas sejam colocadas num saco de pipocas GG. Vocês vão até uma sala de cinema e deixam lá, como se fosse mais um espectador.
Os filhos, claro, riram da cara dela.
– Mãe, e a fazenda? A praia? – sugeriram, tentando ser razoáveis.
– Não! No cinema. – Insistiu Simoninha, com um brilho teimoso nos olhos.
Os meses passaram, sem cinema, sem pipoca. Até que, num dia qualquer, numa sessão qualquer, o “lanterninha” encontrou um saco de pipocas GG, abandonado. Só que, em vez de pipoca, estava cheio de cinzas.
Ele parou, olhou desconfiado, se benzeu e jogou o saco na lixeira com o cuidado de quem lida com um espírito errante.
Enquanto isso, ainda no escurinho do cinema, Simoninha – agora uma espectadora fantasmagórica – se espichava, se esforçava, se retorcia, tentando ler a legenda do último filme da sua vida (ou seria da sua morte?).
Se tinha uma coisa que Simoninha achava que era muito boa, era gostar da sétima arte. Sabia tudo sobre cinema! Quer dizer, pensando bem, nem tanto assim, já que gostava de tudo que passava no escurinho do cinema. Comédia romântica, terror, drama, desenho animado… ela não fazia cerimônia. Entrava em qualquer história com a mesma paixão de uma adolescente no primeiro crush.
O cinema era seu paraíso particular. Simoninha se esbaldava, viajando nas histórias e, claro, saboreando sua paixão incondicional: pipoca. Não era qualquer pipoca. Era o pacote GG, meio doce, meio salgada, que ela carregava como um troféu. E, se por azar caía um grãozinho pelo caminho, Simoninha ficava em choque! Caminhava pela sala com ares de rainha, até se acomodar no assento, pipoca no colo, pronta para deixar o filme rodar.
Ela frequentava as sessões só à tarde. Não gostava de chegar em casa tarde da noite. "Sete horas, no máximo!" – mania de Simoninha. E assim, entre pipocas e filmes, a vida transcorria pacífica... até a fatídica noite de temporal.
Era uma daquelas noites que mais pareciam cena de filme de terror: raios, trovões, vento uivando e uma chuva que parecia vir de uma mangueira celestial. No meio daquilo tudo, a barriga de Simoninha entrou em cena, protagonizando um espetáculo próprio. O barulho que vinha de dentro dela competia com os trovões. Era quase Dolby Surround.
De manhã, lá estava ela, sendo levada ao hospital, com uma dor que parecia querer ganhar o Oscar de Melhor Dor Abdominal. O caminho até o hospital era devastador – árvores no chão, telhados arrancados – e o diagnóstico que recebeu foi ainda pior. Devastador mesmo.
Dia após dia, Simoninha foi definhando. Quando percebeu que o roteiro de sua vida estava nos créditos finais, fez um pedido peculiar aos filhos:
– Quero ser cremada e que minhas cinzas sejam colocadas num saco de pipocas GG. Vocês vão até uma sala de cinema e deixam lá, como se fosse mais um espectador.
Os filhos, claro, riram da cara dela.
– Mãe, e a fazenda? A praia? – sugeriram, tentando ser razoáveis.
– Não! No cinema. – Insistiu Simoninha, com um brilho teimoso nos olhos.
Os meses passaram, sem cinema, sem pipoca. Até que, num dia qualquer, numa sessão qualquer, o “lanterninha” encontrou um saco de pipocas GG, abandonado. Só que, em vez de pipoca, estava cheio de cinzas.
Ele parou, olhou desconfiado, se benzeu e jogou o saco na lixeira com o cuidado de quem lida com um espírito errante.
Enquanto isso, ainda no escurinho do cinema, Simoninha – agora uma espectadora fantasmagórica – se espichava, se esforçava, se retorcia, tentando ler a legenda do último filme da sua vida (ou seria da sua morte?).
Silvia Marchiori Buss

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