Escutando o Silêncio

A casa de madeira do século passado erguia-se no alto de um pequeno morro, ladeada por árvores antigas que guardavam segredos em suas copas robustas. O casario, com seu sótão que sussurrava memórias e um porão que exalava mistério, parecia respirar em silêncio. As janelas de vidros ondulados refletiam ora o sol, ora a melancolia do entardecer, criando jogos de luz que dançavam pelas paredes internas.

Ali vivia um casal de meia-idade, sem filhos, envoltos em uma rotina onde as palavras haviam aprendido a se aquietar. Ela, professora de artes, tinha as mãos manchadas de tinta e o olhar que enxergava poesia nas formas mais banais. Ele, professor de literatura, era um colecionador de palavras, mas as guardava para as aulas, onde suas ideias ganhavam vida. Em casa, o silêncio reinava como um visitante constante, não imposto, mas acolhido.

Os dois costumavam dividir o mesmo espaço em cumplicidade muda. Ela sentava-se perto da janela da sala, pincelando telas com cores que refletiam suas emoções mais profundas. Ele permanecia em seu canto favorito, uma poltrona desgastada ao lado da estante, lendo ou apenas contemplando o vazio como quem escuta versos invisíveis. O relógio na parede marcava o tempo com o tique-taque discreto, quase um eco do pulso vivo da casa.

Cada cômodo tinha sua própria áura. A cozinha, com o aroma constante de café fresco e ervas secando na janela, parecia convidar conversas que nunca vinham. O sótão abrigava suas memórias silenciosas: caixas de cartas nunca enviadas, telas inacabadas e um baú com roupas que cheiravam a um passado longínquo. Já o porão, de piso de terra batida, guardava segredos mais profundos — cadernos de anotações dele, algumas esculturas inacabadas dela e a constante presença de umidade que parecia murmurar segredos antigos.

Às vezes, ao cruzarem o corredor estreito, trocavam um olhar que parecia dizer mais do que qualquer conversa longa. Outras vezes, ela subia ao sótão, onde guardava antigas telas inacabadas, e ele descia ao porão, revisitando cadernos de anotações que nunca mostrava a ninguém. Ambos encontravam no silêncio uma forma de escutar a si mesmos e um ao outro, sem pressa, sem cobranças.

Nas tardes de outono, quando o vento atravessava as frestas das janelas, eles costumavam caminhar pelo jardim. Não havia muitas flores, mas as árvores centenárias formavam um abrigo natural. Ali, entre folhas secas e a sombra das copas, compartilhavam pequenas descobertas: uma folha de formato inusitado, o voo frágil de um passarinho ou o sussurro do vento, que parecia carregar segredos de outros tempos. Era como se cada gesto, cada observação silenciosa, fosse uma conversa íntima e irrepetível.

Em uma noite de inverno, quando a chuva tamborilava suave nas telhas, ela resolveu quebrar a quietude. Desceu do sótão carregando uma tela — uma paisagem imaginária que mesclava traços de florestas e oceanos. Colocou-a sobre o cavalete na sala e olhou para ele, que fechou o livro e ergueu o olhar, curioso.

— “Essa paisagem não existe,” ela disse, e sua voz parecia uma extensão da chuva, calma e inesperada. “Mas eu a ouço nas paredes.”

Ele sorriu levemente, pegou o caderno que estava ao lado e escreveu algumas linhas, que depois leu em voz alta:

“Escutamos o silêncio como quem recolhe as palavras que o vento esqueceu. As paredes falam, sim, mas somente para quem tem ouvidos que escutam o que não se diz.”


Ela assentiu com um sorriso pequeno, mas profundo, e voltou ao seu cavalete. Ele permaneceu ali, observando-a pintar, o som do silêncio preenchido pelo tamborilar da chuva e pelo grafite de seu lápis riscando o papel.

Assim, naquela noite como tantas outras, o silêncio entre eles continuou sendo um diálogo íntimo e infinito, onde palavras ecoavam invisíveis, mas nunca ausentes. E a casa, com suas madeiras antigas e sua presença quase viva, parecia testemunhar esse amor quieto, mas inabalável. Cada chuva, cada vento que passava, tornava-se parte desse cântico sem palavras, eterno e ressonante em suas almas.




Silvia Marchiori Buss

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