Confessionário Silencioso

 Quando a noite se estende e o sono se recusa a chegar, o travesseiro se transforma em algo mais do que um simples suporte para a cabeça cansada. Ele se torna nosso confessionário silencioso, o ouvinte fiel de nossos pensamentos mais profundos e inconfessáveis.

Deitamos e as ações do dia começam a desfilar em nossa mente, como um filme que não pedimos para assistir, mas que insiste em ser projetado. As palavras ditas, os gestos feitos, os momentos de omissão ou coragem, tudo reaparece, buscando um lugar na nossa consciência. O travesseiro é o palco onde esse teatro interno se desenrola, e nós somos tanto os atores quanto os espectadores.

É nele que ponderamos sobre as vezes em que fomos impacientes, as palavras que poderiam ter sido ditas com mais ternura, ou aquelas que deveriam ter sido engolidas. É também ali que celebramos as pequenas vitórias, os gestos gentis que fizeram diferença, os sorrisos que conseguimos provocar.

O travesseiro é imparcial; ele não julga. Mas, ao mesmo tempo, convida à reflexão. É como se sua maciez tivesse o poder de amaciar também os cantos mais duros de nossa consciência, permitindo-nos enxergar o que precisa ser mudado ou reafirmado.

Talvez seja nesse momento, entre a vigília e o sono, que encontramos a oportunidade de um balanço honesto. Não para nos culparmos em excesso, mas para reconhecermos o que somos e o que desejamos ser.

A cada noite, o travesseiro nos lembra que o dia seguinte é um novo capítulo. Ele nos oferece a chance de escrever uma história diferente, talvez mais gentil, mais atenta, mais humana. E assim, enquanto o sono finalmente nos abraça, carregamos para os sonhos a esperança de que, ao acordar, seremos melhores do que fomos hoje.

Silvia Marchiori Buss

 

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