Brincar de Viver
Ana e Miguel se conheceram na juventude, quando ambos tinham a vida inteira à frente, como um campo aberto sob o céu azul. Ele, amante da música, carregava um violão para todo lado, dedilhando melodias que encantavam todos ao redor. Ela, leitora voraz, sempre com um livro de poesias em mãos, tinha a habilidade de transformar qualquer silêncio em algo poético. Suas diferenças os aproximaram. Ana encontrava música nas palavras, enquanto Miguel encontrava poesia nas notas.
No início, tudo era novidade. O primeiro beijo, sob a luz tímida de um poste na pracinha da cidade, foi acompanhado por uma canção que Miguel improvisou no violão. "Essa é só sua, Ana", ele disse, piscando de forma marota. Era assim que ele a conquistava: com melodias e gestos simples, mas cheios de significado.
Juntos, construíram um universo onde a rotina era uma dança entre as notas dele e as palavras dela. Casaram-se cedo, antes mesmo de completarem 25 anos, e criaram uma vida recheada de momentos especiais.
As Estações da Vida
O tempo passou, mas o amor deles resistiu às tempestades da vida. Vieram os filhos, as contas a pagar, os trabalhos cansativos, mas também os passeios de bicicleta, os jantares improvisados e as viagens de última hora. Para cada marco importante, Miguel escolhia uma música. Não precisava ser grandiosa ou famosa; precisava apenas capturar o momento.
Ele tinha uma mania peculiar: criar trilhas sonoras para tudo. O dia do nascimento dos filhos foi marcado por um samba alegre que ele tocou no hospital com o violão improvisado. A primeira grande viagem do casal foi acompanhada por uma bossa nova suave. Até dias de chuva tinham sua própria canção. "A música é a alma das coisas", ele dizia.
Ana, embora mais contida, adorava essa característica dele. Guardava as canções como quem guarda joias preciosas, revivendo os momentos através das melodias.
Certa vez, durante um pôr do sol particularmente bonito, Miguel segurou sua mão com força e, com os olhos fixos no horizonte, disse:
— Quando eu não estiver mais aqui, quero que você continue a brincar de viver.
Ela riu, achando graça da solenidade dele.
— Você e suas filosofias...
Mas Miguel, dessa vez, não riu de volta. Apenas sorriu de um jeito que parecia guardar um segredo.
O Adeus
Depois de quase cinquenta anos juntos, Miguel partiu. Não houve aviso, não houve despedidas planejadas. Foi rápido, nos braços de Ana, enquanto os dois ainda compartilhavam uma última conversa sobre os netos.
A casa silenciosa passou a ser um reflexo da ausência dele. As manhãs perderam a cor, as noites eram insuportáveis, e Ana se sentia à deriva. Não sabia como viver sem ele. O violão ficou encostado na parede, suas cordas empoeiradas, como se esperassem o toque de Miguel para reviverem.
Os filhos tentaram confortá-la, mas era difícil. Ana sentia que a alegria havia partido junto com ele. Passava horas na poltrona onde Miguel costumava tocar, olhando para o vazio.
A Mensagem
Certa tarde, durante um momento de desespero, Ana chorava no sofá. Seu peito parecia apertado de tanta saudade. Pegou o celular, buscando alguma distração, talvez as fotos antigas do casal. Mas antes que conseguisse abrir qualquer coisa, uma música começou a tocar sozinha: "Brincar de Viver", de Guilherme Arantes.
Ana congelou. Não lembrava de ter essa música salva em sua playlist. Não era algo que ela costumasse ouvir. Ainda assim, as notas suaves e a letra entraram em seu coração como uma mensagem direta de Miguel:
"Quem me chamou?
Quem vai querer voltar pro ninho
E redescobrir seu lugar?"
Ela sentiu um arrepio. Era impossível não pensar nele. Miguel amava essa música, embora nunca tivesse mencionado isso como uma das "suas escolhas". Ou será que tinha? Ana não conseguia lembrar. Mas as palavras pareciam falar com ela, de uma maneira que nenhum consolo até então havia conseguido.
O Recomeço
Depois desse dia, algo mudou. Ana começou a ouvir "Brincar de Viver" sempre que a tristeza ameaçava dominá-la. Cada verso era como um conselho de Miguel, um lembrete para que ela não se entregasse ao vazio.
Inspirada pela música, ela começou a reconstruir sua rotina. Primeiro, saiu para cuidar do jardim, onde Miguel passava tanto tempo. Depois, retomou a escrita, registrando as memórias do casal em um caderno que ele havia lhe dado de presente. Por fim, voltou a frequentar os encontros de poesia que tanto amava, agora com o violão de Miguel ao seu lado, mesmo que em silêncio.
Ana nunca soube explicar como aquela música começou a tocar no celular, mas não precisava de explicações. Para ela, era Miguel, cuidando dela, mesmo à distância.
Um Amor Infinito
Os dias voltaram a ter cor, ainda que em tons mais suaves. Ana encontrou um novo equilíbrio, sem esquecer o passado, mas abraçando o presente. Agora, toda vez que "Brincar de Viver" tocava, ela sorria e cantava junto, certa de que Miguel estava ali, invisível, mas presente, dançando ao seu lado.
O amor deles, embalado pela música, nunca deixaria de existir. Afinal, a vida, mesmo em sua fragilidade, era um convite para brincar. E Ana, guiada pelas memórias de Miguel, estava aprendendo novamente como aceitar esse convite.
No início, tudo era novidade. O primeiro beijo, sob a luz tímida de um poste na pracinha da cidade, foi acompanhado por uma canção que Miguel improvisou no violão. "Essa é só sua, Ana", ele disse, piscando de forma marota. Era assim que ele a conquistava: com melodias e gestos simples, mas cheios de significado.
Juntos, construíram um universo onde a rotina era uma dança entre as notas dele e as palavras dela. Casaram-se cedo, antes mesmo de completarem 25 anos, e criaram uma vida recheada de momentos especiais.
As Estações da Vida
O tempo passou, mas o amor deles resistiu às tempestades da vida. Vieram os filhos, as contas a pagar, os trabalhos cansativos, mas também os passeios de bicicleta, os jantares improvisados e as viagens de última hora. Para cada marco importante, Miguel escolhia uma música. Não precisava ser grandiosa ou famosa; precisava apenas capturar o momento.
Ele tinha uma mania peculiar: criar trilhas sonoras para tudo. O dia do nascimento dos filhos foi marcado por um samba alegre que ele tocou no hospital com o violão improvisado. A primeira grande viagem do casal foi acompanhada por uma bossa nova suave. Até dias de chuva tinham sua própria canção. "A música é a alma das coisas", ele dizia.
Ana, embora mais contida, adorava essa característica dele. Guardava as canções como quem guarda joias preciosas, revivendo os momentos através das melodias.
Certa vez, durante um pôr do sol particularmente bonito, Miguel segurou sua mão com força e, com os olhos fixos no horizonte, disse:
— Quando eu não estiver mais aqui, quero que você continue a brincar de viver.
Ela riu, achando graça da solenidade dele.
— Você e suas filosofias...
Mas Miguel, dessa vez, não riu de volta. Apenas sorriu de um jeito que parecia guardar um segredo.
O Adeus
Depois de quase cinquenta anos juntos, Miguel partiu. Não houve aviso, não houve despedidas planejadas. Foi rápido, nos braços de Ana, enquanto os dois ainda compartilhavam uma última conversa sobre os netos.
A casa silenciosa passou a ser um reflexo da ausência dele. As manhãs perderam a cor, as noites eram insuportáveis, e Ana se sentia à deriva. Não sabia como viver sem ele. O violão ficou encostado na parede, suas cordas empoeiradas, como se esperassem o toque de Miguel para reviverem.
Os filhos tentaram confortá-la, mas era difícil. Ana sentia que a alegria havia partido junto com ele. Passava horas na poltrona onde Miguel costumava tocar, olhando para o vazio.
A Mensagem
Certa tarde, durante um momento de desespero, Ana chorava no sofá. Seu peito parecia apertado de tanta saudade. Pegou o celular, buscando alguma distração, talvez as fotos antigas do casal. Mas antes que conseguisse abrir qualquer coisa, uma música começou a tocar sozinha: "Brincar de Viver", de Guilherme Arantes.
Ana congelou. Não lembrava de ter essa música salva em sua playlist. Não era algo que ela costumasse ouvir. Ainda assim, as notas suaves e a letra entraram em seu coração como uma mensagem direta de Miguel:
"Quem me chamou?
Quem vai querer voltar pro ninho
E redescobrir seu lugar?"
Ela sentiu um arrepio. Era impossível não pensar nele. Miguel amava essa música, embora nunca tivesse mencionado isso como uma das "suas escolhas". Ou será que tinha? Ana não conseguia lembrar. Mas as palavras pareciam falar com ela, de uma maneira que nenhum consolo até então havia conseguido.
O Recomeço
Depois desse dia, algo mudou. Ana começou a ouvir "Brincar de Viver" sempre que a tristeza ameaçava dominá-la. Cada verso era como um conselho de Miguel, um lembrete para que ela não se entregasse ao vazio.
Inspirada pela música, ela começou a reconstruir sua rotina. Primeiro, saiu para cuidar do jardim, onde Miguel passava tanto tempo. Depois, retomou a escrita, registrando as memórias do casal em um caderno que ele havia lhe dado de presente. Por fim, voltou a frequentar os encontros de poesia que tanto amava, agora com o violão de Miguel ao seu lado, mesmo que em silêncio.
Ana nunca soube explicar como aquela música começou a tocar no celular, mas não precisava de explicações. Para ela, era Miguel, cuidando dela, mesmo à distância.
Um Amor Infinito
Os dias voltaram a ter cor, ainda que em tons mais suaves. Ana encontrou um novo equilíbrio, sem esquecer o passado, mas abraçando o presente. Agora, toda vez que "Brincar de Viver" tocava, ela sorria e cantava junto, certa de que Miguel estava ali, invisível, mas presente, dançando ao seu lado.
O amor deles, embalado pela música, nunca deixaria de existir. Afinal, a vida, mesmo em sua fragilidade, era um convite para brincar. E Ana, guiada pelas memórias de Miguel, estava aprendendo novamente como aceitar esse convite.
Silvia Marchiori Buss

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