A Ordem Natural das Coisas
Na vastidão da natureza, tudo parece obedecer a uma ordem harmoniosa, regida por ciclos imutáveis. O inverno chega após o outono, anunciando o repouso da terra, e a luz do sol sucede a quietude da lua, marcando o ritmo dos dias. Os rios fluem em direção ao mar, cumprindo seu destino sem hesitação. É como se houvesse uma sinfonia invisível, onde cada elemento desempenha seu papel, contribuindo para a serenidade do todo.
Contudo, a presença do ser humano, o único ser dotado de
raciocínio lógico, frequentemente rompe essa paz. Com sua capacidade de criar e
transformar, ele intervém no equilíbrio natural, modificando ciclos que antes
pareciam imutáveis. Muitas vezes, essas intervenções trazem consequências
desastrosas, alterando o que deveria seguir seu curso natural.
Ainda assim, nem toda dissonância provém da ação humana.
Existem acontecimentos que desafiam nossa percepção do que seria a ordem
natural, causando dor e perplexidade. Um dos exemplos mais dilacerantes é a
morte de um filho antes de seus pais. Esse evento parece inverter a lógica da
vida, que pressupõe que os mais velhos partam antes, deixando aos mais jovens a
continuidade da existência.
Quando algo tão avassalador ocorre, enfrentamos um abismo
emocional. A natureza, com toda a sua serenidade, não oferece respostas para
essa ruptura. Apenas nos ensina, com seu ciclo de tempestades e bonanças, que
mesmo a dor mais profunda pode dar lugar, com o tempo, à aceitação. Não à
justificativa – porque certas perdas não se justificam – mas à compreensão de
que a vida segue, apesar de tudo.
Esse contraste entre a calma da natureza e as turbulências
humanas nos lembra de nossa fragilidade e, paradoxalmente, de nossa força. A
natureza nos ensina sobre ciclos e renascimentos. Cabe a nós, mesmo diante do
impensável, buscar no fluxo da vida a coragem para seguir adiante, respeitando
o tempo do luto e abraçando, quando possível, a paz que ele pode trazer.
Assim, seguimos, aprendendo com a natureza e tentando, a
nosso modo imperfeito, honrar a ordem das coisas – mesmo quando ela nos escapa.
Silvia Marchiori Buss
Comentários
Postar um comentário