Sem identidade
“Seis horas da manhã do dia 7 de abril de 2007, o dia será ensolarado, com previsão de pancadas ao anoitecer.” O homem é acordado com essas informações. Espreguiça-se, sente na pele a sensação do tecido de algodão com leve aroma de lavanda. De súbito, senta-se na cama e olha o aposento. Não reconhece nada. Sacode a cabeça para espantar a sensação de torpor. Fecha os olhos, esfrega-os com as mãos na tentativa de acordá-los. Percebe que já está acordado e que não está sonhando, como imaginava.
Encontra-se em um lugar totalmente desconhecido. Cuidadosamente, procura no pequeno quarto algo que o ajude a lembrar-se de si mesmo. Quem é, o que faz, onde está. Fica sem respostas para todas e qualquer pergunta.
Sente-se à beira de um abismo: não sabe se volta a dormir, na esperança de acordar com as ideias no lugar, ou se levanta em busca de si mesmo.
Na penumbra do quarto, bem ao lado da cama, sobre o criado-mudo, encontra um retrato. Nele, vê um homem moreno, de olhos escuros, abraçando, bem à vontade, uma bela mulher de aproximadamente trinta anos, cabelos cor de mel e olhos azuis. Toca o próprio rosto, tentando achar alguma semelhança com o homem do retrato. Suas mãos se revelam incapazes de reconhecer aquele rosto. Corre até o banheiro. Parado diante do espelho, descobre que o homem da foto é, de fato, ele.
Escuta vozes no andar inferior e aguça o ouvido: percebe vozes de crianças, pelo menos duas, tagarelando, juntamente com uma suave voz de mulher. Seria a mulher da foto? De quem seriam as crianças, cujas vozes ele escuta?
Ouve a doce voz feminina chamando por "Pedro". Seria ele? Está apenas de cuecas. Veste a calça preta e a camisa branca que estão sobre a cadeira próxima à janela, ainda fechada pela pesada cortina. Desconfiado, afasta um pedaço do tecido grosso, tentando identificar onde está. Precisa desesperadamente descobrir alguma coisa. Calça os sapatos pretos que estavam no banheiro, junto a um par de meias também pretas. Outra vez, a voz da mulher chama insistentemente por Pedro, acrescentando agora que iriam se atrasar. Mas atrasar para quê? Para onde deveria ir ao sair do quarto?
Desce lentamente as escadas, observando tudo o que pode, lançando um olhar rápido em busca de algo que o identifique com o lugar. Segue até a cozinha.
O cheiro de café, torradas e ovos mexidos com bacon faz sua barriga roncar. Ao chegar à cozinha, guiado pelas vozes das crianças, ouve:
— Bom dia, papai!
Sente náuseas. Sua vontade é correr ao banheiro para vomitar, pois não reconhece nenhum dos rostos das meninas que o chamam de papai.
A mulher, de frente para o fogão, vira-se segurando o bule, aproxima-se e o beija delicadamente nos lábios, como se fosse hábito. A mulher cuja beleza ele já notara no retrato do quarto parece ainda mais bela. Veste uma calça de moletom, uma camiseta branca que realça um par de seios arredondados sob o fino tecido, e usa um par de tênis de marca famosa e cara. O cabelo cor de mel está preso em um rabo de cavalo.
Os belos olhos azuis indicam que ele deve sentar-se à cabeceira da mesa, o que ele prontamente faz. Estende o braço para servir-se de suco de laranja. O café, que a mulher havia servido quente e forte, é rejeitado. Ao levar o copo de suco à boca, é surpreendido pela exclamação de uma das pequenas:
— Veja, papai está tomando suco!
Ele gosta de suco; não compreende a surpresa da menina. Sem dizer uma palavra, come os ovos mexidos com torradas, evitando olhar para a mulher e as duas crianças.
A mulher pergunta algo sobre o jornal. Imediatamente ele se dirige à porta da frente e apanha o diário, que confirma o que ouvira do locutor da rádio: era mesmo dia 7 de abril de 2007. Começa a se questionar onde estivera todo esse tempo e o que deveria fazer agora. Para onde deveria levar as crianças?
A confusão em sua cabeça parece um tornado que levou por completo sua memória. Está sem identidade.
A mulher percebe o silêncio e pergunta se ele está preocupado com a reunião do escritório. Novamente, a escuridão: escritório, reunião! Pensa o homem, cada vez mais confuso.
Ao sentir novamente os lábios da mulher colados aos seus, percebe que deve partir, pois as crianças já estão afiveladas no banco traseiro do carro, à espera do pai, ou melhor, de Pedro.
Vê a silhueta da mulher acenando em direção ao carro, já iniciando sua caminhada diária. Durante o trajeto de casa até a suposta escola, que ele nem sabe onde fica, tenta de forma lúdica "brincar" com as filhas, perguntando que caminho deve seguir. As espertas meninas indicam direitinho o percurso, que não é longe dali, e até apontam o suposto escritório para onde ele deveria ir após deixá-las na escola.
Pedro se apressa para chegar ao escritório, onde é recebido com certa desconfiança por todos os colegas. Entende cada vez menos, especialmente ao perceber nos olhares e expressões das pessoas certo espanto ao vê-lo.
Um homem, parecendo bem íntimo de Pedro, indaga:
— O que você está fazendo aqui a essa hora? Será que esqueceu a demissão por justa causa?
A vontade do homem é gritar e perguntar algo. Sente-se perdido e completamente só. O suposto melhor amigo percebe sua preocupação e marca um encontro, no lugar de sempre, à mesma hora.
Pedro fica "de tocaia" para seguir o amigo, já que não sabe onde é o "lugar de sempre". Às duas horas em ponto, o amigo sai do escritório e se dirige ao charmoso restaurante próximo. Pedro o encontra já acomodado à mesa, que deve ser a “de sempre”, pensa ele.
Logo descobre que o amigo se chama Filipi, que lhe pergunta como Luciana, sua esposa, reagiu à demissão por justa causa. Pedro responde qualquer coisa, tentando digerir cada informação e entender a causa da demissão.
Uma bela morena, parecendo não ter mais de vinte anos, aproxima-se da mesa e olha para Pedro de forma sedutora. Ele não entende nada, mas agradece o copo de cerveja que ela lhe entrega. Pedro imagina que deve ser a bebida "de sempre", já que não havia feito o pedido.
Filipi percebe o olhar de Paula, chamada de Paulinha pela mesa ao lado. A moça, com um andar provocante, afasta-se, mas, antes, lança outro olhar convidativo para o desorientado Pedro. Curioso, Filipi pergunta se ainda "rola" algo entre ele e Paulinha. Pedro, indignado, pensa que tipo de homem seria esse Pedro, tendo um caso, apesar de ser casado e de ter duas filhas.
— Esse não sou eu!
O pior é quando descobre que foi demitido por ter perdido um grande negócio para a corretora, sendo denunciado por um colega que desejava seu cargo de gerente. Pedro foi flagrado e fotografado saindo do motel com a bela Paulinha, justo no momento da reunião. Ele não acredita no que descobre, pois, além de estar sem identidade, percebe-se sem moral e sem caráter.
Abre-se com o “melhor amigo” e explica tim-tim por tim-tim o que se passa com ele.
— A perda de memória veio a calhar — sugere Filipi. Para o amigo, Pedro deveria buscar ajuda com o médico de confiança do escritório e relatar todos os fatos. Certamente, seria readmitido, e o que havia feito seria justificado pelo lapso de memória.
Pedro é novamente colocado na gerência da firma e recupera a memória de forma lenta e "preguiçosa". A família é preservada de tudo, graças ao diagnóstico de estresse que provocou a amnésia temporária. Por indicação médica, deve seguir rigorosamente a rotina.
Sentado à mesa de sempre, Pedro olha o relógio a todo instante. Assim que os ponteiros indicam doze horas, coloca o paletó, dirige-se ao carro e segue até o motel. Ao seu lado, a bela Paulinha solta os cabelos negros e sedosos. Ela balança a cabeça, fazendo com que alguns fios toquem suavemente o rosto do amante. Vagamente, ele reconhece aquele toque.
Seguindo a recomendação médica de manter a rotina, Pedro redescobre lentamente sua identidade.
Encontra-se em um lugar totalmente desconhecido. Cuidadosamente, procura no pequeno quarto algo que o ajude a lembrar-se de si mesmo. Quem é, o que faz, onde está. Fica sem respostas para todas e qualquer pergunta.
Sente-se à beira de um abismo: não sabe se volta a dormir, na esperança de acordar com as ideias no lugar, ou se levanta em busca de si mesmo.
Na penumbra do quarto, bem ao lado da cama, sobre o criado-mudo, encontra um retrato. Nele, vê um homem moreno, de olhos escuros, abraçando, bem à vontade, uma bela mulher de aproximadamente trinta anos, cabelos cor de mel e olhos azuis. Toca o próprio rosto, tentando achar alguma semelhança com o homem do retrato. Suas mãos se revelam incapazes de reconhecer aquele rosto. Corre até o banheiro. Parado diante do espelho, descobre que o homem da foto é, de fato, ele.
Escuta vozes no andar inferior e aguça o ouvido: percebe vozes de crianças, pelo menos duas, tagarelando, juntamente com uma suave voz de mulher. Seria a mulher da foto? De quem seriam as crianças, cujas vozes ele escuta?
Ouve a doce voz feminina chamando por "Pedro". Seria ele? Está apenas de cuecas. Veste a calça preta e a camisa branca que estão sobre a cadeira próxima à janela, ainda fechada pela pesada cortina. Desconfiado, afasta um pedaço do tecido grosso, tentando identificar onde está. Precisa desesperadamente descobrir alguma coisa. Calça os sapatos pretos que estavam no banheiro, junto a um par de meias também pretas. Outra vez, a voz da mulher chama insistentemente por Pedro, acrescentando agora que iriam se atrasar. Mas atrasar para quê? Para onde deveria ir ao sair do quarto?
Desce lentamente as escadas, observando tudo o que pode, lançando um olhar rápido em busca de algo que o identifique com o lugar. Segue até a cozinha.
O cheiro de café, torradas e ovos mexidos com bacon faz sua barriga roncar. Ao chegar à cozinha, guiado pelas vozes das crianças, ouve:
— Bom dia, papai!
Sente náuseas. Sua vontade é correr ao banheiro para vomitar, pois não reconhece nenhum dos rostos das meninas que o chamam de papai.
A mulher, de frente para o fogão, vira-se segurando o bule, aproxima-se e o beija delicadamente nos lábios, como se fosse hábito. A mulher cuja beleza ele já notara no retrato do quarto parece ainda mais bela. Veste uma calça de moletom, uma camiseta branca que realça um par de seios arredondados sob o fino tecido, e usa um par de tênis de marca famosa e cara. O cabelo cor de mel está preso em um rabo de cavalo.
Os belos olhos azuis indicam que ele deve sentar-se à cabeceira da mesa, o que ele prontamente faz. Estende o braço para servir-se de suco de laranja. O café, que a mulher havia servido quente e forte, é rejeitado. Ao levar o copo de suco à boca, é surpreendido pela exclamação de uma das pequenas:
— Veja, papai está tomando suco!
Ele gosta de suco; não compreende a surpresa da menina. Sem dizer uma palavra, come os ovos mexidos com torradas, evitando olhar para a mulher e as duas crianças.
A mulher pergunta algo sobre o jornal. Imediatamente ele se dirige à porta da frente e apanha o diário, que confirma o que ouvira do locutor da rádio: era mesmo dia 7 de abril de 2007. Começa a se questionar onde estivera todo esse tempo e o que deveria fazer agora. Para onde deveria levar as crianças?
A confusão em sua cabeça parece um tornado que levou por completo sua memória. Está sem identidade.
A mulher percebe o silêncio e pergunta se ele está preocupado com a reunião do escritório. Novamente, a escuridão: escritório, reunião! Pensa o homem, cada vez mais confuso.
Ao sentir novamente os lábios da mulher colados aos seus, percebe que deve partir, pois as crianças já estão afiveladas no banco traseiro do carro, à espera do pai, ou melhor, de Pedro.
Vê a silhueta da mulher acenando em direção ao carro, já iniciando sua caminhada diária. Durante o trajeto de casa até a suposta escola, que ele nem sabe onde fica, tenta de forma lúdica "brincar" com as filhas, perguntando que caminho deve seguir. As espertas meninas indicam direitinho o percurso, que não é longe dali, e até apontam o suposto escritório para onde ele deveria ir após deixá-las na escola.
Pedro se apressa para chegar ao escritório, onde é recebido com certa desconfiança por todos os colegas. Entende cada vez menos, especialmente ao perceber nos olhares e expressões das pessoas certo espanto ao vê-lo.
Um homem, parecendo bem íntimo de Pedro, indaga:
— O que você está fazendo aqui a essa hora? Será que esqueceu a demissão por justa causa?
A vontade do homem é gritar e perguntar algo. Sente-se perdido e completamente só. O suposto melhor amigo percebe sua preocupação e marca um encontro, no lugar de sempre, à mesma hora.
Pedro fica "de tocaia" para seguir o amigo, já que não sabe onde é o "lugar de sempre". Às duas horas em ponto, o amigo sai do escritório e se dirige ao charmoso restaurante próximo. Pedro o encontra já acomodado à mesa, que deve ser a “de sempre”, pensa ele.
Logo descobre que o amigo se chama Filipi, que lhe pergunta como Luciana, sua esposa, reagiu à demissão por justa causa. Pedro responde qualquer coisa, tentando digerir cada informação e entender a causa da demissão.
Uma bela morena, parecendo não ter mais de vinte anos, aproxima-se da mesa e olha para Pedro de forma sedutora. Ele não entende nada, mas agradece o copo de cerveja que ela lhe entrega. Pedro imagina que deve ser a bebida "de sempre", já que não havia feito o pedido.
Filipi percebe o olhar de Paula, chamada de Paulinha pela mesa ao lado. A moça, com um andar provocante, afasta-se, mas, antes, lança outro olhar convidativo para o desorientado Pedro. Curioso, Filipi pergunta se ainda "rola" algo entre ele e Paulinha. Pedro, indignado, pensa que tipo de homem seria esse Pedro, tendo um caso, apesar de ser casado e de ter duas filhas.
— Esse não sou eu!
O pior é quando descobre que foi demitido por ter perdido um grande negócio para a corretora, sendo denunciado por um colega que desejava seu cargo de gerente. Pedro foi flagrado e fotografado saindo do motel com a bela Paulinha, justo no momento da reunião. Ele não acredita no que descobre, pois, além de estar sem identidade, percebe-se sem moral e sem caráter.
Abre-se com o “melhor amigo” e explica tim-tim por tim-tim o que se passa com ele.
— A perda de memória veio a calhar — sugere Filipi. Para o amigo, Pedro deveria buscar ajuda com o médico de confiança do escritório e relatar todos os fatos. Certamente, seria readmitido, e o que havia feito seria justificado pelo lapso de memória.
Pedro é novamente colocado na gerência da firma e recupera a memória de forma lenta e "preguiçosa". A família é preservada de tudo, graças ao diagnóstico de estresse que provocou a amnésia temporária. Por indicação médica, deve seguir rigorosamente a rotina.
Sentado à mesa de sempre, Pedro olha o relógio a todo instante. Assim que os ponteiros indicam doze horas, coloca o paletó, dirige-se ao carro e segue até o motel. Ao seu lado, a bela Paulinha solta os cabelos negros e sedosos. Ela balança a cabeça, fazendo com que alguns fios toquem suavemente o rosto do amante. Vagamente, ele reconhece aquele toque.
Seguindo a recomendação médica de manter a rotina, Pedro redescobre lentamente sua identidade.

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