O Rei e as Plebeias

Joelma e Jussara eram apaixonadas pelo Rei Roberto. A casa delas era um verdadeiro santuário, repleta de cartazes, fotos, revistas e até algumas raridades com o rosto e a assinatura do Rei. Conheceram-se em um show, numa cidadezinha próxima. Foi um encontro que parecia obra do destino, pois as duas tinham algo em comum mais forte que qualquer laço: o amor pelo Rei. Entre vozes e gritos da multidão, encontraram uma à outra e, desde então, tornaram-se inseparáveis.

Trabalhavam como empregadas domésticas em casas de famílias “da alta”, ao contrário de muitas colegas que moravam nas casas onde trabalhavam, as duas decidiram alugar uma casinha só para elas. Afinal, a liberdade era fundamental. Queriam viver sua admiração pelo Rei da forma mais autêntica possível, sem amarras ou julgamentos.

Juntavam cada centavo para comprar CDs, DVDs e ingressos para os shows, que, segundo elas, “custavam o olho da cara”, mas valiam cada centavo. Porque o Rei, como sempre diziam, “não era só um cantor, era uma religião”. Todos os dias, enfrentavam duas lotações pela manhã, “ viajavam” conversando sobre Roberto, relembrando as músicas, e discutindo cada letra e entrevista que haviam visto ou lido sobre ele.

Ao fim do dia, se reencontravam, já na segunda estação, ansiosas para contar as novidades do trabalho, sempre embaladas pelo som de Roberto em seus fones de ouvido. Esse era o ritual diário das fãs, que, entre risadas e confidências, alimentavam a paixão por seu ídolo.

Num dia qualquer, porém, algo inesperado aconteceu. As duas estavam espremidas na entrada do ônibus, tentando encontrar um lugar para se segurar, quando ouviram uma voz rouca e divertida lá do fundo:

— É isso aí, bicho! Rei é Rei!

As duas se entreolharam, sentindo um arrepio percorrer o corpo. Aquela voz parecia compartilhar seu segredo mais precioso. Viraram-se para ver quem era e, para sua surpresa, encontraram o olhar brincalhão do cobrador, que sorria, encantado com a devoção das duas. Ele, de boné virado para trás, vestia uma camiseta com o rosto do Rei estampado.

— Meu nome é Zeca, sou do fã-clube “Bicho Solitário” aqui de São Paulo — disse ele, num tom de quem compartilha uma cumplicidade. — E vocês duas são fãs de verdade, hein?

Joelma e Jussara riram, encantadas e tímidas. A conexão entre eles foi imediata. Entre uma risada e outra, Zeca, já se sentindo parte do trio, sugeriu:

— Que tal um encontro de fãs, hein? Sábado, às duas, no bar do meu primo Leleco . Eu levo o violão e a gente faz uma homenagem ao Rei.

As duas, radiantes, concordaram na mesma hora. Era quase um sonho: música ao vivo, uma tarde inteira falando do ídolo e, quem sabe, cantando com aquele cobrador engraçado que parecia ter saído direto das letras de Roberto.

No sábado, às duas em ponto, Joelma e Jussara chegaram ao barzinho. Lá estava Zeca, de violão em mãos, cantando “Café da Manhã”. Ao vê-las, abriu um sorriso largo, e, em poucos minutos, estavam todos embalados pelas canções do Rei. O tempo passou, e ninguém percebeu. Para elas, cada instante compartilhando o amor pelo Rei era como viver dentro de uma música.

O encontro, sem hora para acabar, marcou o início de uma amizade sincera e inusitada. Dali em diante, Joelma, Jussara e Zeca tornaram-se mais que amigos: eram uma família unida pelo amor ao Rei, onde o cobrador que apareceu de surpresa se tornou parte dessa “realeza”.



Silvia Marchiori Buss

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