O Presente
Ana e Ricardo completariam quarenta anos de casamento em poucas semanas. Planejaram uma comemoração íntima, algo que simbolizasse o amor maduro e companheiro que construíram ao longo das décadas. Decidiram que o presente de bodas seria um quarto novo. Não apenas uma reforma, mas um verdadeiro ninho, onde poderiam se redescobrir e reviver, com desejo renovado, o amor que os uniu quando jovens.
Durante meses, cuidaram de cada detalhe daquele quarto: as paredes em tons de azul calmante, a cama macia, os lençóis escolhidos a dedo, a janela ampla por onde o sol entraria para aquecer os momentos tranquilos. Ricardo, com seu senso de humor de sempre, brincava que o quarto seria “o templo do amor maduro”, enquanto Ana ria, vislumbrando os próximos anos ali, em harmonia e paz. O novo quarto seria o começo de uma nova fase.
Porém, a vida lhes reservou uma surpresa amarga e devastadora. A poucos dias das bodas, Ricardo sofreu um mal súbito. O golpe foi rápido e fatal. Em questão de minutos, Ana viu o chão ser arrancado debaixo de seus pés, viu seus planos de futuro desmoronarem diante de si, como uma fotografia amassada. O homem que lhe fora companheiro, cúmplice e amigo se foi, deixando para trás o quarto vazio e a promessa de um amor que, embora eterno, agora carecia de presença.
Ana se recolheu em um luto que parecia não ter fim. A dor era imensa, e ela sentia um peso nos ossos e uma queimação constante no coração. Passava os dias vagando pela casa, muitas vezes evitando o novo quarto, aquele que deveria ser palco de tantas novas histórias, mas que agora parecia um mausoléu dos sonhos.
Meses se passaram, e o quarto permaneceu fechado. As portas e janelas trancadas, as cortinas cerradas, como se o espaço guardasse a dor e o silêncio que Ana sentia. Mas, aos poucos, algo começou a mudar. Em um impulso de saudade e amor, certo dia, Ana abriu uma pequena fresta da janela, permitindo que um fino feixe de luz invadisse o quarto. Era quase como se Ricardo estivesse ali, enviando um sinal de esperança.
Dia após dia, ela continuava a abrir mais um pouco a janela, deixando o sol entrar aos poucos. A luz começou a aquecer o ambiente, e o cheiro de novo do quarto foi se misturando ao cheiro de vida. A tristeza ainda estava ali, mas era como se o sol estivesse lentamente ajudando Ana a entender que, mesmo na ausência, o amor de Ricardo a acompanhava.
Certa tarde, num momento de coragem, Ana entrou no quarto com passos leves. Sentou-se na cama, respirando fundo, sentindo como se aquele espaço, em sua beleza silenciosa, ainda guardasse as promessas que haviam feito um ao outro. Tocou os lençóis, deixou que o calor do sol lhe aquecesse o rosto e, pela primeira vez desde a morte de Ricardo, permitiu-se chorar de saudade e gratidão, não apenas de dor.
O quarto tornou-se, então, um espaço de reconciliação. Não o templo de amor renovado que planejavam, mas um santuário de lembranças, um lugar onde ela podia recordar o homem que tanto amara e ainda amava. As lágrimas já não eram de desespero, mas de uma saudade serena, e ela sentia que, de alguma forma, Ricardo ainda estava ao seu lado, compartilhando aqueles momentos silenciosos e cheios de significado.
Naquele quarto, entre o amor e a perda, Ana encontrou uma nova forma de continuar.
Silvia Marchiori Buss
Durante meses, cuidaram de cada detalhe daquele quarto: as paredes em tons de azul calmante, a cama macia, os lençóis escolhidos a dedo, a janela ampla por onde o sol entraria para aquecer os momentos tranquilos. Ricardo, com seu senso de humor de sempre, brincava que o quarto seria “o templo do amor maduro”, enquanto Ana ria, vislumbrando os próximos anos ali, em harmonia e paz. O novo quarto seria o começo de uma nova fase.
Porém, a vida lhes reservou uma surpresa amarga e devastadora. A poucos dias das bodas, Ricardo sofreu um mal súbito. O golpe foi rápido e fatal. Em questão de minutos, Ana viu o chão ser arrancado debaixo de seus pés, viu seus planos de futuro desmoronarem diante de si, como uma fotografia amassada. O homem que lhe fora companheiro, cúmplice e amigo se foi, deixando para trás o quarto vazio e a promessa de um amor que, embora eterno, agora carecia de presença.
Ana se recolheu em um luto que parecia não ter fim. A dor era imensa, e ela sentia um peso nos ossos e uma queimação constante no coração. Passava os dias vagando pela casa, muitas vezes evitando o novo quarto, aquele que deveria ser palco de tantas novas histórias, mas que agora parecia um mausoléu dos sonhos.
Meses se passaram, e o quarto permaneceu fechado. As portas e janelas trancadas, as cortinas cerradas, como se o espaço guardasse a dor e o silêncio que Ana sentia. Mas, aos poucos, algo começou a mudar. Em um impulso de saudade e amor, certo dia, Ana abriu uma pequena fresta da janela, permitindo que um fino feixe de luz invadisse o quarto. Era quase como se Ricardo estivesse ali, enviando um sinal de esperança.
Dia após dia, ela continuava a abrir mais um pouco a janela, deixando o sol entrar aos poucos. A luz começou a aquecer o ambiente, e o cheiro de novo do quarto foi se misturando ao cheiro de vida. A tristeza ainda estava ali, mas era como se o sol estivesse lentamente ajudando Ana a entender que, mesmo na ausência, o amor de Ricardo a acompanhava.
Certa tarde, num momento de coragem, Ana entrou no quarto com passos leves. Sentou-se na cama, respirando fundo, sentindo como se aquele espaço, em sua beleza silenciosa, ainda guardasse as promessas que haviam feito um ao outro. Tocou os lençóis, deixou que o calor do sol lhe aquecesse o rosto e, pela primeira vez desde a morte de Ricardo, permitiu-se chorar de saudade e gratidão, não apenas de dor.
O quarto tornou-se, então, um espaço de reconciliação. Não o templo de amor renovado que planejavam, mas um santuário de lembranças, um lugar onde ela podia recordar o homem que tanto amara e ainda amava. As lágrimas já não eram de desespero, mas de uma saudade serena, e ela sentia que, de alguma forma, Ricardo ainda estava ao seu lado, compartilhando aqueles momentos silenciosos e cheios de significado.
Naquele quarto, entre o amor e a perda, Ana encontrou uma nova forma de continuar.

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