O Peso da Chuva
Manuela estacionou o carro próximo à entrada da trilha, como fizera tantas vezes no passado. O barulho incessante da chuva parecia ecoar os pensamentos confusos que martelavam em sua mente. A água escorria pelas folhas das árvores, criando pequenos riachos que serpenteavam pelo chão irregular. As gotas que caíam sobre seu casaco pareciam lágrimas, como se a natureza entendesse o peso que ela carregava.
Caminhar por aquela trilha era um ritual que marcara os anos de sua juventude. Nos tempos de faculdade, ela e os amigos costumavam rir alto, cantar e discutir sobre política e literatura enquanto percorriam aquele caminho. Eles eram jovens, invencíveis, e acreditavam que o mundo se dobraria aos seus ideais. Hoje, porém, Manuela caminhava sozinha. Quase cinquenta anos, mãe solo, e com um arrependimento que jamais confessaria em voz alta.
A trilha parecia mais longa agora, ou talvez fosse o peso da memória que dificultava os passos. Cada curva trazia lembranças que se desenrolavam como um filme antigo, em preto e branco. Ela recordava-se de Gabriel, o jovem de sorriso tímido e olhos intensos que a fazia sentir como se o mundo desaparecesse ao seu redor. Ele não fazia parte de seu círculo de amigos, não se encaixava na moldura elitista que ela e o grupo haviam criado. Ele era simples demais, espontâneo demais. Naquele tempo, Manuela via isso como algo que a desqualificaria aos olhos de seus pares.
Quando Gabriel declarou seu amor, Manuela hesitou. O que os amigos pensariam? Como reagiriam ao verem-na ao lado de alguém tão fora do padrão que haviam estabelecido? Ela o afastou com desculpas frias, escondendo o coração que batia descompassado. Ainda assim, aquele único momento de entrega, na noite em que a chuva também caía torrencialmente, marcaria para sempre suas vidas.
Poucos meses depois, Manuela descobriu que estava grávida. Decidiu ter o filho em segredo, sem revelar a ninguém quem era o pai. Criou um muro em torno de si mesma, inventando histórias para justificar as perguntas que inevitavelmente surgiam. Gabriel nunca soube. Ela nunca lhe deu a chance de saber.
Enquanto pisava em uma pedra escorregadia, Manuela sentiu uma dor familiar no peito. Não era apenas o arrependimento; era o peso de todas as escolhas que fizera e das oportunidades que deixara escapar. Por anos, ela havia se convencido de que havia tomado as decisões certas, mas agora via que a juventude, com sua arrogância e insegurança, a impedira de viver plenamente.
O barulho da chuva deu lugar ao som de risadas que ecoavam em sua memória. Ela podia ver a si mesma jovem, sentada em um tronco com os amigos, discutindo temas que hoje pareciam insignificantes. Eles estavam tão preocupados em parecer inteligentes, em se adequar, que se esqueceram de ser felizes.
No final da trilha, Manuela parou diante de uma clareira onde costumavam descansar. O espaço parecia menor, menos imponente do que ela se lembrava. Sentou-se em uma pedra úmida e fechou os olhos. A imagem de Gabriel surgiu em sua mente, tão nítida quanto se ele estivesse ali. E, pela primeira vez em anos, permitiu-se chorar. Chorou pela juventude desperdiçada, pelo amor rejeitado e pelo filho que cresceu sem saber de onde vinha metade de sua história.
Ao voltar para casa, molhada e exausta, Manuela tomou uma decisão. Era tarde demais para corrigir o passado, mas ainda havia tempo para abrir portas para o futuro. Ela pegou o telefone e discou um número que sabia de cor, mesmo sem nunca tê-lo usado. Após alguns toques, uma voz familiar atendeu do outro lado.
– Alô?
Por um momento, Manuela hesitou. Mas então, com a voz firme, disse:
– Gabriel, aqui é Manuela. Acho que temos muito para conversar.
Silvia Marchiori Buss
Caminhar por aquela trilha era um ritual que marcara os anos de sua juventude. Nos tempos de faculdade, ela e os amigos costumavam rir alto, cantar e discutir sobre política e literatura enquanto percorriam aquele caminho. Eles eram jovens, invencíveis, e acreditavam que o mundo se dobraria aos seus ideais. Hoje, porém, Manuela caminhava sozinha. Quase cinquenta anos, mãe solo, e com um arrependimento que jamais confessaria em voz alta.
A trilha parecia mais longa agora, ou talvez fosse o peso da memória que dificultava os passos. Cada curva trazia lembranças que se desenrolavam como um filme antigo, em preto e branco. Ela recordava-se de Gabriel, o jovem de sorriso tímido e olhos intensos que a fazia sentir como se o mundo desaparecesse ao seu redor. Ele não fazia parte de seu círculo de amigos, não se encaixava na moldura elitista que ela e o grupo haviam criado. Ele era simples demais, espontâneo demais. Naquele tempo, Manuela via isso como algo que a desqualificaria aos olhos de seus pares.
Quando Gabriel declarou seu amor, Manuela hesitou. O que os amigos pensariam? Como reagiriam ao verem-na ao lado de alguém tão fora do padrão que haviam estabelecido? Ela o afastou com desculpas frias, escondendo o coração que batia descompassado. Ainda assim, aquele único momento de entrega, na noite em que a chuva também caía torrencialmente, marcaria para sempre suas vidas.
Poucos meses depois, Manuela descobriu que estava grávida. Decidiu ter o filho em segredo, sem revelar a ninguém quem era o pai. Criou um muro em torno de si mesma, inventando histórias para justificar as perguntas que inevitavelmente surgiam. Gabriel nunca soube. Ela nunca lhe deu a chance de saber.
Enquanto pisava em uma pedra escorregadia, Manuela sentiu uma dor familiar no peito. Não era apenas o arrependimento; era o peso de todas as escolhas que fizera e das oportunidades que deixara escapar. Por anos, ela havia se convencido de que havia tomado as decisões certas, mas agora via que a juventude, com sua arrogância e insegurança, a impedira de viver plenamente.
O barulho da chuva deu lugar ao som de risadas que ecoavam em sua memória. Ela podia ver a si mesma jovem, sentada em um tronco com os amigos, discutindo temas que hoje pareciam insignificantes. Eles estavam tão preocupados em parecer inteligentes, em se adequar, que se esqueceram de ser felizes.
No final da trilha, Manuela parou diante de uma clareira onde costumavam descansar. O espaço parecia menor, menos imponente do que ela se lembrava. Sentou-se em uma pedra úmida e fechou os olhos. A imagem de Gabriel surgiu em sua mente, tão nítida quanto se ele estivesse ali. E, pela primeira vez em anos, permitiu-se chorar. Chorou pela juventude desperdiçada, pelo amor rejeitado e pelo filho que cresceu sem saber de onde vinha metade de sua história.
Ao voltar para casa, molhada e exausta, Manuela tomou uma decisão. Era tarde demais para corrigir o passado, mas ainda havia tempo para abrir portas para o futuro. Ela pegou o telefone e discou um número que sabia de cor, mesmo sem nunca tê-lo usado. Após alguns toques, uma voz familiar atendeu do outro lado.
– Alô?
Por um momento, Manuela hesitou. Mas então, com a voz firme, disse:
– Gabriel, aqui é Manuela. Acho que temos muito para conversar.
Silvia Marchiori Buss

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