O Guarda- Livros

Seu Ubaldo foi rejeitado pela mulher quando se viu impossibilitado de cumprir o “compromisso” de marido. Um problema de saúde o impedia de “apagar o fogo” de Sofia, sua segunda esposa.

Sofia era uma mulher jovem, cheia de vitalidade, com uma “retaguarda” generosa e um par de seios que pareciam dois melões maduros e suculentos, prontos para serem admirados. Seu Ubaldo, já com certa idade, havia deixado a primeira esposa, com quem teve dois filhos, pela atraente Sofia. A jovem, porém, era astuta. Chamava-o de “paizinho” não por afeição, mas pelo status e segurança que ele oferecia, especialmente no escritório de contabilidade onde trabalhava.

No início, Seu Ubaldo ainda conseguia corresponder à sensualidade de Sofia, que, mesmo assim, escapava para encontros com outros mais jovens, o que todos ao redor sabiam, exceto o próprio “babão”, que preferia ignorar. Ele a conheceu no escritório onde trabalhava, um dos mais importantes de Santo André. Sofia, recém-chegada do Norte e buscando uma vida melhor, começara como faxineira. E foi com sua esperteza e charme que ela fisgou o contador já maduro, mas ainda disposto a encarar uma nova aventura.

Para impressioná-la, Ubaldo construiu uma casa nos moldes que Sofia escolheu, gastando boa parte de sua poupança. Mas, à medida que sua saúde declinava, ele percebeu que se tornara uma sombra do homem que acreditava ser. Ela, por outro lado, passou a tratá-lo com desdém e a maltratá-lo, assumindo a casa que ele havia construído para ambos. Nas noites em que recebia “visitas” em sua suíte privativa, o “paizinho” era convidado a dar uma volta ou passar o tempo longe de casa. Seu Ubaldo, desolado, vagava pelas ruas até o horário determinado para retornar.

No fim, tudo o que lhe restava era o quartinho ao lado da cozinha, pequeno e abafado, onde se recolhia nas noites quentes e solitárias. Enquanto Sofia desfrutava de conforto e companhia em sua ampla suíte, Ubaldo aceitava sua condição com um amargo conformismo, afastado de antigos amigos e até dos próprios filhos, que nunca entenderam como o pai, antes tão sensato, caíra na armadilha de uma mulher tão interesseira. Eles o haviam alertado, mas ele nunca ouviu, achando que o amor venceria.

Naquela tarde, enquanto tomava seu habitual picolé para amenizar o calor escaldante, Ubaldo sentiu-se à beira de um colapso. A situação o humilhava a tal ponto que ele pensou que sua cabeça fervia junto com o calor insuportável. Quando passou pela lotérica e conferiu o bilhete da Mega-Sena acumulada, a ficha caiu. Ele era o grande vencedor.

Ao chegar em casa, exatamente na hora imposta por Sofia, encontrou a mulher exausta, mas com a expressão de sempre. Antes que ela lhe ordenasse qualquer coisa, Ubaldo se encheu de coragem. Com a mesma firmeza de quem controlava livros contábeis, ele deu a primeira e última ordem para a mulher. Surpresa, Sofia começou a perceber que algo havia mudado.

Naquele dia, ele estabeleceu novas condições. Se Sofia quisesse continuar vivendo sob aquele teto, precisaria ganhar o próprio sustento. Deixaria de lado a vida fácil que sempre quis e, finalmente, teria que trabalhar para sobreviver. Ele agora detinha a verdadeira conta de tudo o que Sofia lhe custara, e não haveria mais espaços para abusos e manipulações. O preço para permanecer ali seria alto e bem calculado, como todo bom guarda-livros saberia fazer.



Silvia Marchiori Buss

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