O Amor de Botão
No coração de uma cidade grande, onde a pressa ditava o ritmo e as luzes das telas refletiam em rostos apagados, Aurora vivia cercada por máquinas de alta tecnologia. Engenheira de sistemas, sua especialidade era criar soluções tecnológicas que prometiam facilitar a vida das pessoas. Sua última criação, um aplicativo chamado "Eros", era o auge da eficiência: juntava casais com base em compatibilidades matemáticas. "Encontre o par perfeito com um clique!", anunciavam as campanhas espalhadas por toda a cidade.
Aurora, entretanto, vivia um paradoxo. Enquanto sua invenção era aclamada como uma revolução no amor, ela sentia um vazio crescente. Observava como os usuários do "Eros" se comunicavam com mensagens prontas, risos programados e encontros que pareciam mais entrevistas do que conexões verdadeiras. Era como se as pessoas se transformassem em peças intercambiáveis, obedecendo a padrões estabelecidos pela máquina.
Um dia, durante uma pausa para o café, Aurora conheceu Luca, um homem que destoava do ambiente ao seu redor. Ele não olhava para o celular, mas para as pessoas. Quando esbarraram por acaso, sua primeira reação foi um sorriso genuíno, algo raro em um mundo robotizado. "Desculpe," disse ele. Em minutos, estavam conversando como velhos conhecidos.
Luca não era adepto do "Eros". Para ele, relacionar-se era um processo orgânico, cheio de imprevisibilidades. "Amar é como cultivar um jardim," ele dizia. "Você nunca sabe exatamente o que vai florescer, mas essa é a beleza. Não é algo que se pode programar." Aurora ouviu, mas uma parte de si hesitava. Seria ele apenas um romântico perdido em um mundo que já havia mudado?
Apesar de encantada com Luca, Aurora enfrentava um dilema no trabalho. O "Eros" não apenas funcionava — ele dominava. As estatísticas mostravam um aumento exponencial no uso do aplicativo, e mais pessoas confiavam nas máquinas para guiar suas escolhas do que na própria intuição. Nos encontros que presenciava, as conversas eram previsíveis, as emoções calibradas, como se os seres humanos estivessem se moldando ao sistema.
Certa noite, Aurora encontrou-se sozinha em frente à tela de seu computador. Lá estavam os dados: milhões de conexões, bilhões de mensagens trocadas. Mas algo estava errado. Não havia profundidade, não havia alma. Ela olhou para fora, para a cidade iluminada por telas, e se deu conta de que sua criação não estava conectando as pessoas, mas transformando-as em engrenagens de um mecanismo.
Ainda assim, desistir era uma decisão quase impossível. O "Eros" já não era apenas uma ferramenta; era uma cultura, um hábito, uma nova maneira de viver. Aurora percebeu que o mundo queria aquilo, que sua invenção era apenas um reflexo de um desejo coletivo por conveniência e controle. A liberdade de errar, de sentir, de se perder e se encontrar, estava sendo sacrificada em nome de um conforto artificial.
Aurora começou a se distanciar de Luca. Não por falta de sentimentos, mas porque via nele uma resistência que parecia cada vez mais rara, quase obsoleta. Ele representava um ideal que ela não sabia se ainda era possível manter. Um dia, Luca perguntou: "Por que você teme o caos?" Aurora não soube responder.
Conforme o tempo passava, o "Eros" se expandia, e Aurora, incapaz de lutar contra a corrente, continuou no sistema. Luca, por sua vez, desapareceu da sua vida, como uma memória de algo que poderia ter sido. Nas ruas, as pessoas mal se olhavam. Conversas espontâneas tornaram-se relíquias, e os olhares eram constantemente desviados para as telas.
Aurora, agora um ícone de seu tempo, percebeu o que o mundo havia escolhido. Não era culpa do "Eros". A tecnologia apenas acelerava o que já estava latente: a busca pelo controle total, pela eliminação do acaso. O amor, como ela um dia sonhou, tornava-se um conceito antiquado, uma lembrança de uma era onde a humanidade ainda era livre para errar.
Ela continuava sua rotina, criando novos sistemas, aperfeiçoando a tecnologia. Mas, de tempos em tempos, lembrava-se de Luca e do que ele havia dito. Torcia para que ele tivesse encontrado um ser de sua “espécie”. Pensava no que ele havia dito e que, talvez o amor não devesse ser tão fácil. Mas em um mundo de botões e telas, o amor verdadeiro era algo que muitos já não tinham tempo ou coragem de procurar.
E Aurora? Ela seguiu em frente, fazia parte de um sistema que já não podia desafiar. Afinal, a tecnologia não estava apenas vencendo — ela já havia vencido.
Aurora, entretanto, vivia um paradoxo. Enquanto sua invenção era aclamada como uma revolução no amor, ela sentia um vazio crescente. Observava como os usuários do "Eros" se comunicavam com mensagens prontas, risos programados e encontros que pareciam mais entrevistas do que conexões verdadeiras. Era como se as pessoas se transformassem em peças intercambiáveis, obedecendo a padrões estabelecidos pela máquina.
Um dia, durante uma pausa para o café, Aurora conheceu Luca, um homem que destoava do ambiente ao seu redor. Ele não olhava para o celular, mas para as pessoas. Quando esbarraram por acaso, sua primeira reação foi um sorriso genuíno, algo raro em um mundo robotizado. "Desculpe," disse ele. Em minutos, estavam conversando como velhos conhecidos.
Luca não era adepto do "Eros". Para ele, relacionar-se era um processo orgânico, cheio de imprevisibilidades. "Amar é como cultivar um jardim," ele dizia. "Você nunca sabe exatamente o que vai florescer, mas essa é a beleza. Não é algo que se pode programar." Aurora ouviu, mas uma parte de si hesitava. Seria ele apenas um romântico perdido em um mundo que já havia mudado?
Apesar de encantada com Luca, Aurora enfrentava um dilema no trabalho. O "Eros" não apenas funcionava — ele dominava. As estatísticas mostravam um aumento exponencial no uso do aplicativo, e mais pessoas confiavam nas máquinas para guiar suas escolhas do que na própria intuição. Nos encontros que presenciava, as conversas eram previsíveis, as emoções calibradas, como se os seres humanos estivessem se moldando ao sistema.
Certa noite, Aurora encontrou-se sozinha em frente à tela de seu computador. Lá estavam os dados: milhões de conexões, bilhões de mensagens trocadas. Mas algo estava errado. Não havia profundidade, não havia alma. Ela olhou para fora, para a cidade iluminada por telas, e se deu conta de que sua criação não estava conectando as pessoas, mas transformando-as em engrenagens de um mecanismo.
Ainda assim, desistir era uma decisão quase impossível. O "Eros" já não era apenas uma ferramenta; era uma cultura, um hábito, uma nova maneira de viver. Aurora percebeu que o mundo queria aquilo, que sua invenção era apenas um reflexo de um desejo coletivo por conveniência e controle. A liberdade de errar, de sentir, de se perder e se encontrar, estava sendo sacrificada em nome de um conforto artificial.
Aurora começou a se distanciar de Luca. Não por falta de sentimentos, mas porque via nele uma resistência que parecia cada vez mais rara, quase obsoleta. Ele representava um ideal que ela não sabia se ainda era possível manter. Um dia, Luca perguntou: "Por que você teme o caos?" Aurora não soube responder.
Conforme o tempo passava, o "Eros" se expandia, e Aurora, incapaz de lutar contra a corrente, continuou no sistema. Luca, por sua vez, desapareceu da sua vida, como uma memória de algo que poderia ter sido. Nas ruas, as pessoas mal se olhavam. Conversas espontâneas tornaram-se relíquias, e os olhares eram constantemente desviados para as telas.
Aurora, agora um ícone de seu tempo, percebeu o que o mundo havia escolhido. Não era culpa do "Eros". A tecnologia apenas acelerava o que já estava latente: a busca pelo controle total, pela eliminação do acaso. O amor, como ela um dia sonhou, tornava-se um conceito antiquado, uma lembrança de uma era onde a humanidade ainda era livre para errar.
Ela continuava sua rotina, criando novos sistemas, aperfeiçoando a tecnologia. Mas, de tempos em tempos, lembrava-se de Luca e do que ele havia dito. Torcia para que ele tivesse encontrado um ser de sua “espécie”. Pensava no que ele havia dito e que, talvez o amor não devesse ser tão fácil. Mas em um mundo de botões e telas, o amor verdadeiro era algo que muitos já não tinham tempo ou coragem de procurar.
E Aurora? Ela seguiu em frente, fazia parte de um sistema que já não podia desafiar. Afinal, a tecnologia não estava apenas vencendo — ela já havia vencido.

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