Despida

Sara despertou com uma estranheza que lhe invadia os sentidos – uma sensação desconhecida, mas curiosamente prazerosa. Abriu os olhos, que pareciam rasgar o rosto ao buscar a luz que, quem sabe, escapasse por uma fresta da janela: um raio de sol, o brilho de uma estrela... mas nada. Tentou ouvir os sons familiares, as saracuras que sempre habitavam o arvoredo ao redor de sua casa, mas tudo estava quieto. Nem o aroma de café, companheiro constante das manhãs, chegava-lhe às narinas. Sentiu-se, então, despida. Despida da visão, despida da audição, despida dos cheiros. Completamente despida.

Um leve arrepio percorreu seu corpo; espiou por baixo das cobertas e viu-se sem vestes, nua como veio ao mundo. Mas não era apenas a nudez da pele que a envolvia – era uma nudez mais profunda, uma despida dos pudores que a vida inteira a envolveram, das malícias que a sociedade lhe impôs, dos julgamentos e culpas que acumulou como se fossem parte de sua própria carne. Sentiu, pela primeira vez, sua pele respirar, como se ela mesma houvesse se libertado.

Curiosamente, aquela nudez não a incomodou. Pelo contrário, enxergou-se nela e, mais ainda, reconheceu-se. Ali, despida, encontrou um novo tipo de conforto, uma paz que jamais conhecera, como se, ao livrar-se de tudo, finalmente estivesse leve. Cada barreira, cada véu invisível, cada camada que lhe encobria a essência, tudo desfeito.

Levantou-se devagar, ainda trêmula, como se temesse despertar de um sonho. Passou os dedos pelo próprio rosto, sentindo a textura da pele, os traços de expressão que se acumulavam como memórias vividas, e sorriu. Era um sorriso livre, desprovido de qualquer expectativa ou cobrança. Notou as rugas que o tempo lhe dera, não mais como marcas de batalha, mas como parte de uma história que agora parecia distante. E, naquele instante, Sara percebeu: estava também despida do tempo. De um modo inexplicável, o passado e o futuro se dissipavam, e o agora, esse momento em que respirava, era tudo o que existia.

Sentou-se na beira da cama e observou as mãos, as veias que contavam seus anos, as unhas ligeiramente quebradas, resquícios de tarefas cotidianas. Mas agora não havia mais afazeres, não havia mais papéis a cumprir. Não era mãe, não era esposa, não era filha. Era, apenas, Sara – simplesmente. A cada instante que passava, ia se desfazendo de todas as identidades que vestira ao longo da vida, como roupas abandonadas ao pé da cama. E isso não lhe causava vazio, mas uma plenitude tão leve que quase lhe trazia vertigem.

Ao levantar-se, sentiu o chão frio sob os pés e, com os passos lentos, foi até a janela. Abriu-a sem pressa, permitindo que o ar matinal lhe acariciasse a pele nua. Fechou os olhos e, pela primeira vez em muito tempo, respirou fundo, como se aquele ar renovado pudesse penetrar mais fundo, purificando não apenas os pulmões, mas o espírito. Deixou-se impregnar pelo silêncio do mundo, e o que antes parecia ausência agora era uma presença: uma serenidade palpável, uma calmaria que preenchia todos os espaços vazios.

Foi invadida por um desejo puro e sereno: que pudesse acordar assim, sempre despida, sempre leve, livre dos pesos que o mundo lhe colocou sobre os ombros. Que pudesse, a cada amanhecer, estar despida dos sentimentos terrenos, dos apegos que, embora humanos, tantas vezes carregavam dor. Ela desejou, com uma força delicada e sincera, que cada novo dia lhe trouxesse essa mesma paz – a paz de estar nua não apenas na pele, mas na alma.



Silvia Marchiori Buss

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