Boa Sorte
Joice segurou a respiração quando ouviu o som de um carro na rua, correndo para a janela na esperança de ver o velho carro azul de Jonas. Suspirou profundamente. Não era ele. O carro, desbotado pelo tempo, estava ausente como o próprio marido, que nunca se atrasava sem antes avisar. Preocupada, Joice sentiu seu coração afundar – onde estaria Jonas? Ele não costumava sumir sem explicações.
Jonas era um comerciante ambulante, jovem e cheio de sonhos. Vivia na estrada, viajando de cidade em cidade para vender os produtos que trazia de um país vizinho. Sentia orgulho da profissão que escolhera, que além de lhe render um sustento, trazia-lhe histórias e amizades. Joice e ele se conheceram durante uma dessas viagens; o romance foi rápido e intenso. Em pouco tempo, decidiram compartilhar a vida, e Joice logo engravidou. O casal foi abençoado com Clarice, uma menina especial que passou a ser o centro do mundo de Joice.
Dedicando-se integralmente à filha, Joice acabou esquecendo de ser esposa, mulher, companheira. Seu universo girava em torno de Clarice; cada pensamento, cada gesto, tudo era para a menina. Jonas, por sua vez, intensificou o trabalho, talvez numa tentativa de compensar a distância emocional que se abria entre eles. Precisava do dinheiro para sustentar a família, especialmente para custear as necessidades especiais da filha. O tempo foi passando, e a ausência do marido tornou-se uma constante na rotina de Joice. Eles ainda dividiam o mesmo teto, mas a vida conjugal havia ficado em algum lugar do passado. Não havia mais beijos, carícias, ou palavras de carinho; apenas silêncio.
Com o passar das horas, o aperto no peito de Joice transformou-se em angústia. Tentou ligar para Jonas, mas o telefone dele estava fora de área. A noite avançou, e ela, exausta, adormeceu na surrada poltrona, os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu o vazio da ausência de Jonas e temeu o pior. Na manhã seguinte, o sol encontrou Joice ainda na poltrona, seu corpo pesado de preocupação e cansaço. Aflita, ajeitou Clarice no carrinho especial e saiu em direção à delegacia para registrar o desaparecimento do marido.
A polícia foi solícita, mas descartou rapidamente a possibilidade de algum acidente. Nenhuma ocorrência fora registrada nas rodovias locais. Nenhum hospital, pronto-socorro ou delegacia próxima tinha registro de um homem com as características de Jonas. Joice sentiu um alívio passageiro, logo substituído por uma pontada de suspeita e dor. E se ele estivesse com outra pessoa? E se seu marido tivesse encontrado um novo amor, alguém com quem dividir a vida que Joice deixara para trás? Essa ideia era mais dolorosa do que o pensamento de um acidente. De repente, ela se viu mergulhada em culpa e arrependimento. Onde estavam o amor e a paixão que um dia uniram o casal?
Determinada a reencontrar Jonas e com um novo tipo de coragem, Joice acomodou Clarice no carro e saiu em busca do marido. Mas, à medida que avançava pelas estradas, se deu conta de que procurava alguém que talvez não conhecesse mais. Ao chegar à primeira cidade, mostrou uma foto de Jonas a alguns moradores. Logo ouviu a resposta: “Ah, sim, ele esteve aqui ontem, com Isabel e o menino…”
Isabel? Menino? Joice ficou em choque. Quem era essa Isabel? Seria possível que Jonas tivesse construído uma vida paralela? Ela seguiu as direções que lhe deram e chegou a uma casinha encantadora, cercada por um jardim florido. Um aroma doce, misto de flores e café fresco, enchia o ar. Um menino especial brincava à luz do sol, e ao fundo, ela percebeu a silhueta de duas figuras que se moviam com intimidade por trás de uma cortina de renda.
O coração de Joice apertou-se. De repente, sentiu-se como uma intrusa no que parecia ser um recanto de paz e harmonia. Aquela visão trouxe de volta lembranças dos primeiros anos ao lado de Jonas, quando eram apaixonados e sonhavam juntos. Mas a realidade a golpeou – ela se dera conta de que abandonara o amor e o próprio marido em nome da dedicação exclusiva a Clarice. Culpa e arrependimento a invadiram. Percebeu que, ao longo dos anos, depositara todo o peso de sua desistência sobre os ombros da filha.
Clarice, sentada no banco do carro, parecia tranquila, alheia à tempestade interna da mãe. Joice respirou fundo, dando meia-volta. Dirigiu-se a Clarice e murmurou, quase para si mesma, mas com uma serenidade inesperada: “Boa sorte, papai.”

Silvia Marchiori Buss
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