Asas para sonhar
Emília era uma jovem babá de uma família rica. Chegava todos os dias sete horas da manhã à grande casa de portas largas e janelas sempre abertas para o mundo. Lá dentro, era cercada por móveis luxuosos, peças raras de lugares exóticos e fotografias que contavam histórias de viagens para os destinos mais longínquos. Paris, Tóquio, Cairo, Rio de Janeiro, Veneza… Os olhos dela brilhavam ao passar pelos corredores da casa, absorvendo cada detalhe, como se cada fotografia e cada objeto lhe revelassem um mundo que, até então, só existia em sua imaginação.
Desde pequena, Emília sentia uma vontade inquietante de explorar, de conhecer o mundo além dos limites do bairro onde crescera. Mas, diferente da família que ela atendia, seu orçamento era limitado e suas responsabilidades, muitas. Suas “viagens” eram os passeios com as crianças no parque próximo ou nas idas à praça do mercado. Cuidar dos pequenos era algo que ela adorava, mas, por dentro, aquele desejo adormecido de voar parecia ganhar mais vida a cada dia.
Em uma tarde de outono, enquanto as crianças dormiam, Emília parou diante de uma fotografia especial. Era uma imagem da Torre Eiffel ao entardecer, com uma luz dourada iluminando o monumento e o céu pintado de laranja e rosa. Ela ficou fascinada, sentindo-se quase transportada para aquele lugar. A dona da casa a observou em silêncio e, com um sorriso leve, aproximou-se.
— Gostou de Paris, Emília?
Ela se assustou, mas não pôde esconder o brilho nos olhos ao responder:
— Ah, dona Helena, eu só vejo essa cidade em fotos e filmes, mas parece que conheço. Sinto como se estivesse ali, como se pudesse caminhar por essas ruas só de olhar.
A senhora sorriu e lhe disse algo que jamais esqueceria:
— Sabe, Emília, o primeiro passo para conhecer o mundo é sonhar. Cada sonho é uma asa que você cria.
Essas palavras ressoaram fundo no coração de Emília. Durante semanas, aquelas palavras a acompanharam, transformando cada momento de folga em oportunidades de “viagens”. Sempre que podia, voltava àquelas fotografias, criando na mente histórias de quem ela seria se estivesse em cada um desses lugares. Na África, se imaginava de mãos dadas com crianças, explorando vilarejos coloridos e aprendendo sobre culturas ancestrais. Na Itália, visualizava-se navegando em uma gôndola pelos canais de Veneza, ouvindo as canções dos gondoleiros. No Japão, via-se em meio aos templos antigos, em meio às cerejeiras em flor, sentindo-se parte de algo maior e tão bonito.
Aos poucos, Emília começou a perceber que, com a força dos sonhos, ela podia atravessar fronteiras. Não eram fronteiras físicas, mas emocionais e criativas, e cada uma lhe abria uma nova perspectiva. Com o tempo, ela aprendeu que o “voar” da vida vinha dos sonhos, e que esse poder estava em suas próprias mãos e no coração que ela preenchia com novos destinos, novas histórias e descobertas.
Assim, a jovem babá transformou sua rotina. Enquanto cuidava das crianças, sempre contava histórias sobre terras distantes, falando com tanto entusiasmo que até as crianças se viam vivendo aventuras ao seu lado. Emília mostrava a elas como sonhar era importante, como era possível viajar apenas fechando os olhos e imaginando.
Em uma tarde de domingo, enquanto estava em seu quarto, Emília pegou um caderno e começou a escrever todos os lugares que desejava conhecer, todos os detalhes que captara nas fotos e objetos da casa. Ela chamava o caderno de “meu diário de sonhos” e, ao lado de cada destino, escrevia a história que havia imaginado para si.
O tempo passou, e Emília continuou cuidando da família. Mas, agora, carregava dentro de si um segredo precioso: ela já havia aprendido a voar.

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