Apenas um beijo

Era trinta e um de dezembro de dois mil. Todos, eufóricos, subiam e desciam a Avenida de Copacabana, numa alegria contagiante. Nessa noite especial, a cidade parecia envolta por uma atmosfera de esperança e renovação. A ordem era ser feliz, era se permitir acreditar em dias melhores.

Pessoas caminhavam sozinhas ou em grupo, vestidas de branco ou com roupas claras, adornadas por flores e detalhes coloridos nos cabelos. Sorrisos largos enfeitavam rostos que brilhavam tanto quanto os fogos que começavam a explodir no céu. Um ano novo, um novo século. O brilho das estrelas misturava-se ao espetáculo pirotécnico sobre as águas de Copacabana, criando um ambiente de magia e harmonia. Era um momento em que diferenças pareciam se desfazer: os moradores dos luxuosos apartamentos da charmosa avenida se “misturavam” com aqueles que desciam as ladeiras das comunidades, todos em busca daquela energia única e cheia de esperança.

No meio dessa multidão festiva, um homem e uma mulher caminhavam, alheios a tudo e a todos, cada um preso em seu próprio mundo. Ela, subindo em direção aos fogos; ele, descendo ao som da banda de Ipanema. Eram estranhos, mas seus passos os levavam um ao encontro do outro.

No exato momento em que os fogos começaram a colorir o céu, seus olhares se encontraram. Em meio a milhares de rostos, foi como se apenas os dois existissem. Ambos traziam no olhar uma dor silenciosa, um sofrimento que os tornava, de certa forma, semelhantes. Sentiam-se vazios por perdas diferentes, mas as dores se refletiam como ecos silenciosos em suas almas.

Enquanto todos olhavam para o alto, encantados com o espetáculo de luzes e cores, os dois, como num encantamento, aproximaram-se, guiados por uma atração inexplicável. Sem uma palavra, sem uma explicação, seus lábios se encontraram em um beijo longo e silencioso, único, no meio de uma multidão. Foi um beijo sem promessas, sem pretensões – apenas o conforto mútuo de duas almas que, por um instante, compartilharam algo mais profundo que palavras.

Naquele breve instante, enquanto o mundo celebrava ao redor, eles encontraram no outro um espaço de paz e entendimento. Quando se separaram, trocaram um último olhar e, sem despedidas, seguiram seus caminhos. 


Silvia Marchiori Buss

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