Amor demais é fraude

A família Frescura parecia perfeita: pai, mãe e dois filhos adolescentes, Carmela e Pedro. Jussara, a mãe, havia deixado os estudos de lado para se dedicar ao casamento e à criação dos filhos, enquanto Ariovaldo, o pai, trabalhava dia e noite para dar o melhor à sua "família perfeitinha." O casal mantinha a harmonia e a felicidade por muitos anos, mas, com o crescimento dos filhos, esses começaram a perceber que aquela perfeição tinha algo de estranho. Era amor demais, uma felicidade impecável demais para ser verdadeira.

Na escola, Carmela e Pedro ouviam os relatos dos colegas sobre os altos e baixos de suas famílias, e a experiência alheia começava a soar mais interessante do que a estabilidade dos Frescura. A melhor amiga de Carmela, Iarinha, era sempre paparicada por todos. Passava pela fase “rebelde”, com olheiras profundas e roupas amassadas, resultado da recente separação dos pais. Para Carmela, isso era "o auge": pais separados, uma rotina caótica, um “drama” para compartilhar.

"Que demais, gente! A mãe da Marina se casou com a vizinha! Pais separados, bagunça geral… queria uma vida assim!". Carmela desabafava, frustrada com a perfeição em casa.

Enquanto isso, Pedro compartilhava da mesma insatisfação, achando tudo “um saco”. Ele não entendia por que só eles viviam em um cenário tão harmonioso, enquanto a maioria dos amigos tinha histórias para contar. A rotina organizada de Jussara também incomodava: todas as refeições eram pontuais, e nada podia começar até que o pai estivesse presente. Jussara repetia sempre a mesma frase: “Família unida faz refeições unidas.”

Mas num desses almoços, Carmela, com o apoio do irmão, explodiu:

"Chega de fingir! Vocês dois são uma fraude. Não existe amor assim. Podem parar com o teatro, pai, mãe… nós aguentamos. Podem abrir o jogo, já estamos quase adultos!

Ariovaldo e Jussara quase caíram das cadeiras, chocados. Olharam para os filhos, incrédulos, enquanto eles afirmavam que se sentiam deslocados por serem felizes demais em meio ao caos de tantas outras famílias. Para eles, era um constrangimento ser a exceção.

A partir daquele almoço, a família Frescura tomou uma decisão inesperada. Com o desejo de ver os filhos felizes, Ariovaldo e Jussara começaram a simular brigas “dramáticas” para que tudo parecesse mais real aos olhos dos adolescentes. No fundo, continuavam unidos, mas agora, com um toque de “tortura teatral” e pequenas cenas inventadas para manter o “teatro da vida imperfeita” que tanto agradava a Carmela e Pedro.

E assim, de forma inusitada, os Frescura descobriram que amor demais também pode significar uma “fraude” divertida quando o objetivo é fazer a felicidade daqueles que amam.




Silvia Marchiori Buss

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