A Grande Ilusão

Lúcia sempre sonhara com o brilho de Nova York. Vinda de uma pequena cidade do interior, onde

seu talento para o canto era motivo de orgulho, acreditava que o mundo estava à sua espera para ouvir sua voz. Quando chegou à cidade, deslumbrada pelas luzes e pela energia de cada esquina, imaginava-se sob os refletores de um grande palco, diante de um público hipnotizado.

Os primeiros dias foram de entusiasmo e coragem. De uma audição a outra, Lúcia atravessava as avenidas com um sorriso no rosto, certa de que cada tentativa era um degrau a menos para a Broadway. Mas a cidade logo começou a lhe mostrar outra face. As audições eram duras, os olhares dos jurados frios, e as portas, quase sempre fechadas. "Você tem um bom timbre, mas não é o suficiente", ouviu várias vezes. E com o passar dos meses, suas economias rarearam e o sonho começou a perder o brilho.

Sem opções, Lúcia passou a se apresentar em bares decadentes, com público disperso e rostos indiferentes, cantando no meio do burburinho de vozes e copos que se chocavam. O glamour que imaginara esvaziou-se, e os aplausos que esperava foram trocados por olhares rápidos e distantes. As notas que saíam de sua voz, por mais sinceras, não tocavam mais ninguém.

Porém, em seu coração, o sonho ainda queimava. Para manter a chama acesa, Lúcia começou a buscar alívio em pequenas pílulas coloridas que lhe ofereciam. No início, rejeitou a ideia, mas em noites frias, sem aplausos e sem amigos, as pílulas se tornaram companheiras. Sob efeito delas, voltava a ser a estrela que tanto desejava. Imaginava-se na Broadway, sob aplausos infinitos, em vestidos brilhantes. Nos raros momentos de sobriedade, sabia que a realidade era bem diferente, mas a ilusão era a única coisa que lhe restava.

No entanto, conforme o tempo passava, a necessidade de aumentar a dose , se fazia cada vez mais necessária, e os intervalos de lucidez tornavam-se curtos e dolorosos. Sua saúde definhava, o brilho de seus olhos se apagava, mas ela seguia cantando em qualquer bar que a aceitasse, enquanto a Broadway parecia cada vez mais distante.

Em uma noite fria de inverno, Lúcia saiu cambaleando de um bar após sua última apresentação. A rua estava vazia, envolta em névoa e com o brilho pálido das luzes dos postes. Ela murmurava as notas de uma canção antiga, arrastando-se pela calçada, quando um carro a acertou em cheio. Sem ninguém por perto, Lúcia foi deixada ali, sozinha.

No dia seguinte, sem identificação, seu corpo foi encaminhado para um enterro simples, anônimo, sem flores ou homenagens. A cidade, que já não a ouvia, seguiu indiferente. O grande sonho de Lúcia, que a trouxera para a cidade das luzes, se apagou silenciosamente, sem que ninguém soubesse que ela desejara ser uma estrela.

A Broadway, afinal, nunca chegara para Lúcia.


 
Silvia Marchiori Buss



 

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