Um grito no silêncio

Era madrugada, e o silêncio tomava conta do apartamento vazio. As janelas abertas deixavamentrar o ar frio, que se misturava ao peso da escuridão. Mariana estava sentada na poltrona da sala, rodeada de fotografias e lembranças. Em seus olhos, o cansaço da dor que não se dissipa, da saudade que se agarra a cada poro do corpo, trazendo apenas vazio. Fazia pouco mais de um ano que perdera Lucas, e, desde então, sua vida parecia girar em torno do luto, da solidão, e de uma angústia que nenhuma palavra conseguia descrever.

Lucas havia sido mais que seu marido. Era seu amigo, seu porto seguro, a pessoa com quem compartilhava o riso e o silêncio. Quando ele partiu, a vida de Mariana desmoronou de uma forma que ela não sabia como reconstruir. Amigos, família, até mesmo colegas de trabalho tentaram trazê-la de volta à vida, mas nada parecia ser capaz de preencher o vazio imenso que o deixara em seu peito.

A princípio, ela acreditou que seria uma fase. Que a dor, em algum momento, iria se transformar em lembrança suave, em nostalgia leve. Mas o tempo passou, e a ferida só se aprofundava. A depressão, como uma sombra persistente, passou a acompanhá-la em todos os lugares, tornando-se sua única companhia. Os dias eram iguais; acordar, passar as horas como se estivesse em um túnel, onde não havia cores, sons nem esperança. E, à noite, o silêncio.

As noites eram as piores. Quando todos dormiam, quando a cidade se acalmava, o luto e o vazio pareciam mais pesados. Mariana sentia-se sufocada, como se algo dentro dela quisesse gritar e sair, mas não houvesse força, nem vontade, apenas uma angústia profunda que ela mal compreendia. Passava horas acordada, encarando o teto ou vagando pelo apartamento, buscando uma presença invisível, um toque que nunca viria. E, no silêncio, ela ouvia o que ninguém mais ouvia: um grito, um chamado distante. Sabia que era seu coração implorando por algum alívio, alguma resposta, algo que desse sentido à dor que a consumia.

Em uma noite particularmente difícil, Mariana decidiu sair. Caminhou pelas ruas escuras, sentindo o vento frio em seu rosto, quase como uma bofetada que a mantinha desperta. Cada passo era pesado, cada movimento parecia exigir um esforço que ela já não tinha. A cidade estava quieta, mas a dor gritava dentro dela. Sentia-se perdida, sozinha em um labirinto de lembranças, e, por um momento, desejou poder deixar tudo para trás, encontrar Lucas de alguma forma, ainda que fosse no silêncio do nada.

Chegou ao parque onde costumavam passear aos domingos. O lugar estava vazio, exceto pelo som das árvores balançando suavemente. Sentou-se em um dos bancos, olhando para o céu. Lembrou-se de como Lucas dizia que as estrelas sempre brilhariam, mesmo que não fossem visíveis, e que, em algum lugar, sempre haveria luz, mesmo quando tudo parecia escuro.

Ali, sozinha, finalmente permitiu que o grito que vinha segurando há tanto tempo escapasse. Um som baixo, quase um sussurro, mas carregado de toda a dor que guardara por meses. As lágrimas vieram, sem controle, e, pela primeira vez, Mariana se deixou sentir. Sentiu a ausência, o vazio, a saudade, o peso da perda. Em meio ao choro, algo dentro dela começou a ceder, uma parede que construíra para se proteger se desfazia, revelando que ainda havia algo além da dor, algo que, até então, ela se recusara a ver.

Ao amanhecer, as cores suaves do céu surgiram, iluminando lentamente o parque. Mariana, ainda sentada no banco, sentiu o sol aquecer seu rosto. Havia ainda um vazio, uma saudade insuportável, mas também um leve alívio. O grito silencioso finalmente fora liberado. Ainda que Lucas não estivesse mais ali, a vida não precisava ser apenas dor. Haveria sempre um espaço dele em sua memória, mas, pela primeira vez, Mariana entendeu que a presença dele também poderia ser um lugar de amor, de gratidão, de lembranças que, um dia, trariam paz.

Levantou-se, enxugando as lágrimas, sentindo-se leve pela primeira vez. Voltou para casa, ainda carregando a saudade, mas agora com uma força renovada. E, ao cruzar a porta de seu apartamento, sentiu que, finalmente, seu grito no silêncio havia sido ouvido – e, com ele, a esperança de que, aos poucos, poderia transformar a ausência em um novo começo.



Silvia Marchiori Buss


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