Concha

Horácio ficou paralisado. O tempo ao seu redor pareceu parar quando viu aquela mulher miúda entrando no restaurante acompanhada por um homem, que parecia ser seu companheiro. Eles entraram de braços dados, e ele mantinha a mão espalmada sobre a cintura dela, com um toque possessivo que logo escorregou para as costas e a lateral das nádegas. Horácio notou que ela não parecia confortável; sutilmente, afastava a mão dele com toques leves, quase imperceptíveis, que deixavam transparecer uma leve inquietude.

Enquanto se acomodavam em uma mesa próxima, Horácio não conseguia tirar os olhos da mulher. Seus amigos falavam, as risadas e os brindes soavam ao seu redor, mas ele estava em outro lugar, completamente alheio à movimentação do restaurante. Tudo o que enxergava eram os olhos escuros e expressivos da mulher. Ele a observava com uma curiosidade irresistível e um encantamento que nunca havia sentido. Era como se aquela mulher, desconhecida até então, tivesse uma presença magnética, que chamava sua atenção de maneira quase involuntária.

Ela se ajeitou na cadeira, tentou disfarçar seu desconforto, e soltou um sorriso leve para o companheiro. Porém, em um momento fugaz, olhou para o lado e seus olhos cruzaram com os de Horácio. Esse instante, tão breve quanto um piscar de olhos, foi suficiente para que ele mergulhasse em um devaneio profundo. Imaginou como seria ter aquela mulher em seus braços, abraçando-a com suavidade e sentindo a textura de seus cabelos entre os dedos. Fechou os olhos por um segundo, visualizando-a deitada ao seu lado, adormecida, respirando suavemente. Sentiu um desejo intenso de estar com ela, mas não um desejo comum – era como se ele ansiava, mais do que tudo, apenas dormir ao seu lado, envolvê-la, protegê-la do frio das noites solitárias.

A imagem dos dois juntos era tão vívida em sua mente que ele quase podia sentir o calor dela em seu peito, o conforto daquele momento íntimo e silencioso. Pensava em como seria estar com ela, em como talvez ambos já tivessem percorrido caminhos semelhantes, levando vidas diferentes, mas que, naquele momento, pareciam se cruzar de forma inevitável. Enquanto seu coração pulsava mais forte, um ímpeto tomou conta de seus passos.

Quase sem perceber, Horácio se levantou e caminhou até a mesa dela. A timidez, que sempre o acompanhara, parecia ter se dissipado entre as mesas ao redor. Parou diante dela, tentando ignorar o homem ao lado, e com um olhar fixo, falou com uma voz firme, porém cheia de suavidade:

— Desde que você entrou aqui, não consigo pensar em outra coisa. Sinto como se estivesse te esperando por uma vida inteira. Gostaria de dormir ao seu lado, de compartilhar minha vida contigo... e de aquecer seu sono, noite após noite.

A mulher, inicialmente surpresa, demonstrou uma indignação silenciosa, mas logo esse semblante deu lugar a uma expressão intrigada, como se algo maior estivesse sendo compreendido. Ignorando a presença do homem ao lado, ela o encarou e, depois de um longo silêncio, respondeu com emoção:

— Você fala como se me conhecesse há muito tempo. Como se soubesse quem eu sou e o que eu preciso. Mas... você nem sabe meu nome.

— Não preciso saber o seu nome para saber que eu quero estar ao seu lado, em silêncio, como quem descobre uma nova parte de si. Quero te segurar enquanto dorme, e só isso. Não é algo que eu precise explicar – só sentir.

Um brilho de surpresa e compreensão cruzou o olhar dela, como se alguma barreira invisível tivesse sido rompida. Com um sorriso sutil, ela olhou para ele, a voz quase em um sussurro, e disse:

— Então... você só quer dormir comigo? Para sempre, ao meu lado?

— Só isso – dormir ao seu lado. E só você, sempre.

Eles se entreolharam, e, naquele momento, a profundidade do silêncio entre eles dizia mais do que qualquer palavra. Ela se levantou da mesa, pegou a mão dele, que encaixou como uma luva em sua palma, e murmurou em seu ouvido:

— A vida toda... só se for de conchinha.

E assim, de mãos dadas, os dois saíram do restaurante, como se soubessem que aquele era apenas o começo de uma promessa silenciosa e eterna.



Silvia Marchiori Buss

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