Sexto sentido
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Lucinha estava inquieta naquela noite. Augusto percebeu desde o momento em que entraram em casa, mas foi quando ela, finalmente, quebrou o silêncio, que ele se deu conta de que a conversa tomaria um rumo inesperado.
— O que tu acha da nossa vizinha do 301? Perguntou Lucinha, com um olhar quase acusador.
Augusto, tomado de surpresa, tentou disfarçar o susto com humor:
— Eu, hein? Por que essa pergunta agora? Só pra quebrar o clima? Essa é a desculpa de hoje, pra não estarmos juntos? Disse ele, rindo nervoso.
Na realidade, Augusto escondia um pequeno segredo: Candinha, a vizinha do 301, uma moça simpática e sorridente, chamava sua atenção de uma forma que ele nunca havia admitido. Mesmo sabendo que o casamento com Lucinha era sólido, ele não conseguia evitar o impacto que a jovem exercia sobre sua imaginação, especialmente nos breves momentos que trocavam um “bom dia” no elevador ou no hall do prédio.
Lucinha, porém, não desistiu da conversa:
— Ah, para, Augusto! Já ouvi dizer que ela é cheia de segredos, que não é lá muito confiável... O pessoal do prédio fala, sabe? Ela fica se exibindo com aquele jeito... como que ninguém percebe?
Ele sentiu que a situação exigia uma resposta à altura:
— Olha, pra falar a verdade, nem me lembro muito dela. Aliás, esse tipo de fofoca nunca me interessou. Vai ver que estão falando demais. Disse, fingindo indiferença.
Na verdade, Augusto sabia exatamente os horários em que cruzaria com Candinha. Bastava um sorriso e um “bom dia” para que seu dia começasse melhor. Era algo passageiro, nada além disso. Porém, a forma como Lucinha questionava, com aquele ar curioso e, ao mesmo tempo, desafiador, fazia com que ele temesse que sua admiração fosse mais óbvia do que pretendia.
Ele e Lucinha se conheciam há décadas. Casaram-se muito jovens e, desde então, mantinham um casamento fiel e sólido. Construíram uma família, tiveram três filhos e se dedicaram, um ao outro, na mesma medida. Porém, como todo relacionamento longo, havia momentos de monotonia, e Augusto sabia que os dois andavam distantes nos últimos tempos.
Lucinha, por sua vez, parecia cada vez mais desconfiada:
— Ah, é bom mesmo que não se lembre. Aquela ali tem idade pra ser nossa filha, Augusto! E vive rebolando pra lá e pra cá, com aquelas saias curtas... Comentou, visivelmente incomodada.
Augusto, tentando desviar a atenção, aproximou-se dela e acariciou suas coxas, como não fazia há algum tempo. Em silêncio, pensava se sua esposa de fato percebia seu interesse por Candinha, mesmo que passageiro e platônico. Era possível que Lucinha tivesse, de fato, aquele sexto sentido de que tanto falavam?
— Vagabundinha, mesmo! Murmurou Lucinha, mas dessa vez com um tom divertido, enquanto se deixava envolver pelas carícias do marido.
Sem perder o momento, Augusto a silenciou com um beijo profundo e apaixonado, e, para sua surpresa, Lucinha correspondeu com a mesma intensidade, como há tempos não fazia. Era como se algo neles tivesse sido despertado, uma chama esquecida no fundo do coração.
Encantada pelo momento, Lucinha sussurrou, com um brilho de ousadia nos olhos:
— Que tal, então, convidarmos a vizinha do 301 pra um jantar? Vai que ela anima o nosso encontro?
Augusto, surpreso, apenas riu. Entendeu que o comentário era uma brincadeira de sua esposa e que, de algum modo, aquela curiosidade sobre Candinha havia reacendido o desejo adormecido entre os dois. Naquela noite, os murmúrios do prédio silenciaram, e os dois redescobriram o prazer de estarem juntos, percebendo que a chama entre eles estava longe de se apagar.
E, no fundo, Augusto percebeu que, independentemente das distrações da vida, nada poderia substituir o amor verdadeiro e duradouro que ele e Lucinha construíram ao longo de todos aqueles anos.
Silvia Marchiori Buss
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