Nas asas da saudade
Cláudia sempre sonhara em ser mãe, mas o tempo parecia escapar-lhe por entre os dedos. Crescera sozinha, perdendo os pais ainda jovem, e seu casamento terminara antes mesmo que o desejo de maternidade se fizesse presente. Dedicada ao trabalho em uma grande empresa farmacêutica, subiu aos poucos na carreira, enquanto sua vida pessoal ficava em segundo plano.
Foi somente após a separação, já morando em Portugal, que o sonho de ser mãe aflorou em Cláudia com toda intensidade. Decidiu, então, por uma produção independente, e, depois de várias tentativas, recebeu a tão aguardada notícia: estava grávida. A felicidade a tomou por completo, e, ao dar à luz, sentiu que finalmente encontrara o sentido de sua vida. Criou seu filho com amor e dedicação, vendo-o crescer e tornar-se um jovem cheio de sonhos e planos, seu companheiro de todas as horas e verdadeiro amigo.
Mas o destino, impiedoso, lançou sobre ela o golpe mais cruel. Em uma tarde como outra qualquer, recebeu a notícia devastadora: seu filho, em um passeio pelas montanhas ao redor de Lisboa, sofrera um acidente fatal. A jovem vida fora arrancada sem aviso, e, para Cláudia, foi como se o chão desaparecesse sob seus pés. A dor da perda lhe roubou o fôlego, esmagando seu corpo e alma. Por dias, mal se reconhecia; vagava pela casa vazia, envolta em memórias que agora a sufocavam. Sentia-se despedaçada, consumida pela culpa, perguntando-se incessantemente se deveria ter seguido o caminho da maternidade.
Naquele abismo de desespero, Cláudia decidiu que precisava de uma pausa. Tirou um ano sabático e, sem direção, lançou-se em uma viagem solitária pela África, em busca de algum sentido. Andou por regiões inóspitas, lugares onde a pobreza e as dificuldades eram quase palpáveis. Em um vilarejo pequeno e esquecido, onde as crianças corriam descalças e a educação era um privilégio distante, Cláudia sentiu um sopro de vida, algo novo que se acendia em meio à escuridão de sua perda.
Decidiu que ali seria o seu lugar. Com os recursos que possuía e a força que, sem perceber, ainda guardava em si, fundou uma escola para meninos e meninas, oferecendo-lhes a chance de um futuro diferente. Cada sorriso, cada palavra de agradecimento e cada novo aprendizado que compartilhava com aquelas crianças trazia-lhe uma paz silenciosa. A dor da perda nunca se dissipou, mas transformou-se em algo que a impulsionava a amar mais, a viver mais, a dar ao mundo aquilo que seu filho lhe ensinara.
Ao olhar para as crianças da aldeia, sentia que a presença de seu filho estava ali, nos gestos, nas risadas, nas pequenas conquistas diárias. A ferida de sua perda havia se transformado em cicatriz, uma marca permanente que ela carregaria para sempre. Mas agora, essa cicatriz era um lembrete de que havia amado profundamente, de que trouxera ao mundo alguém especial. O filho que perdera tornara-se o impulso para uma nova vida, e, sem culpa, Cláudia passou a lembrar dele com gratidão e paz, certa de que, no amor que ainda oferecia, perpetuava o legado de sua existência.
Silvia Marchiori Buss
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