Mulher de programa
Ela cobre os
lábios marcados com batom vermelho, embora a dor emocional fosse muito mais
profunda. Ao olhar no espelho, Sara quase não se reconhece. A figura refletida
é de uma personagem que ela criou, uma fantasia que veste todos os dias para
sobreviver.
A mulher
refletida no espelho carrega um semblante sofrido. Embora tenha apenas quarenta
anos, Sara ainda guarda, no íntimo, a menina tímida que foi lançada em um mundo
hostil e aos poucos se viu transformada.
Quando começou
sua vida “fácil”, Sara quase desistiu. Tentou trabalhar em outras áreas para
ajudar a família, mas a falta de estudo e a pouca idade dificultaram essa
aspiração. Sua mãe, então, a direcionou a essa vida, se tornando sua primeira
figura de apoio.
Sara teve de
abrir mão de seus sonhos, juventude e dos planos de formar uma família para
seguir em frente. Aos poucos, aprendeu a se adaptar ao papel que lhe foi
imposto.
Ao longo da vida,
Sara teve três filhos que ficaram sob a guarda de outras pessoas. Seu primeiro
filho, fruto de uma relação com alguém especial, a fez acreditar que ela teria
a chance de formar uma família. Mas, quando ele soube da gravidez, se afastou,
deixando Sara sozinha.
Ela deu à luz no
hospital e, por alguns dias, teve a chance de cuidar do filho, registrá-lo e
batizá-lo. Porém, pouco tempo depois, ao voltar de uma noite de trabalho,
descobriu que seu filho havia sido levado. Com o tempo, ela conseguiu descobrir
onde ele vivia e, à distância, passou a observar seu crescimento.
Anos depois, Sara
se viu novamente grávida e, ao longo da vida, teve outros filhos, mas não pôde
cuidar de nenhum deles.
Mirando-se no
espelho, ela vê, por um breve instante, a jovem que um dia sonhou em ser feliz.
Passa o batom vermelho pelo rosto, tentando reencontrar a menina sonhadora que
fora. Por um breve momento, ela a encontra. Mas um leve toque na porta a traz
de volta, lembrando que um cliente a espera.
Com uma saia
curta e uma blusa de brilho, ela ajeita o corpo e respira fundo, preparando-se
para mais uma noite de trabalho. Quando o sol começa a nascer, Sara, com o
corpo cansado, abandona a personagem e se senta à beira da calçada, onde sente
que pertence.
Em uma noite,
quando a lua parecia ter desaparecido do céu, o jovem que ela havia recusado
volta a procurá-la. Sabendo das consequências de uma nova recusa, Sara se deita
e o chama pelo nome: Betinho.
Surpreso, ele
pergunta como ela sabe seu nome. De mãos dadas, mãe e filho se olham, e, como
se quisesse brindá-los, a lua volta a iluminar o céu, prometendo nunca mais
desaparecer.
Silvia Marchiori Buss

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