Dois pesos, uma medida
A manhã estava linda, e a mesa posta parecia mais uma propaganda de margarina. Seria uma manhã dos sonhos, não fosse a fúria de Isa, que estava irada, com duas pedras na mão. Segurava, fortemente, uma foto de sua arquirrival Valerinha, nua em pelo, na cachoeira da montanha.
— Esse desgraçado dizia que esse lugar era só nosso, mentiroso! É hoje que ele se arranca daqui!
Batendo com os dedos na mesa de madeira, continuava destilando seu veneno.
— Aproveitador, salafrário, malandro. Diz que me ama. Ama o quê? Ele se aproveita da boa vida que eu lhe proporciono!
Elogios dos mais variados esperavam Cadinho, que se preparava no banheiro, depois de uma bela noite de amor com seu amor.
Cadinho, sorridente, aproxima-se de Isa, que não dá trégua e abre o verbo:
— Olha aqui, seu malandro, mentiroso. Pode me dizer por que guarda essa foto da piriguete, nuazinha em pelo, na nossa cachoeira?
— Calma, Isa! Isso não tem mais importância, me esqueci de tirá-la da caixa que trouxe na mudança. Foi bem antes de você, éramos adolescentes. Nem sonhava em conhecer o amor da minha vida!
Isa não se convence com os argumentos de Cadinho, que se desdobrava para acalmá-la. Cheio do saco pela cobrança da namorada, ele volta ao quarto, pega várias fotos e as joga sobre a mesa, enquanto pergunta:
— Ah! Se for assim, o que é tudo isso aqui? Quem são esses caras? Olha as poses! E de todas as raças, olha esse oriental...
— Por acaso não foram teus peguetes? Por que toda essa onda com uma fotinho da minha ex? Tá achando pretexto, bancando a boa, a santinha... Ahhhhhhh!
Isa sente que pisou na bola e, sem moral, começa a choramingar, coisa que sempre dava certo pra ela, enquanto fala baixinho:
— Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa!
— Como é que é? Fala mais alto que eu não escutei! Gritou Cadinho, enquanto arrancava a foto de Valerinha das mãos de Isa.
— Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
Silvia Marchiori Buss

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