Dois olhos
Clarice, envolta em uma solidão densa e quase palpável, hesitou em cumprir o plano de ir ao museu. Era uma promessa que havia feito ao marido pouco antes de sua partida. Ele insistira para que ela redescobrisse a beleza do mundo pelos próprios olhos, como se tivesse uma premonição do que estava por vir.
No museu, Clarice caminhou pelas salas amplas, observando as pinturas e esculturas com um olhar novo. No entanto, tudo parecia distante; cada obra parecia envolta em uma camada invisível que a isolava, tornando-se quase inacessível. Sentia-se uma intrusa na própria vida, presa entre as memórias de um passado compartilhado e o vazio do presente.
Então, ao entrar na sala das fotografias, algo mudou. Ela parou em frente a uma imagem que parecia falar diretamente com sua alma. Ali, Clarice encontrou um reflexo de si mesma, uma lembrança da força que ainda habitava dentro dela, mesmo após a perda. A foto capturava um olhar cheio de ternura e intensidade – o mesmo olhar que seu marido tinha ao observá-la.
Clarice tocou suavemente a moldura, sentindo que, de algum modo, ele estava ali, guiando-a. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu-se presente. Deixou o museu com passos leves e uma nova disposição. Os quase cinquenta anos que viveram juntos eram parte inseparável dela, mas agora compreendia: sua jornada continuava, ainda que em um ritmo novo, com uma perspectiva própria.
Ao caminhar pelas ruas, Clarice percebeu que, pela primeira vez desde a partida dele, via o mundo com os próprios olhos. A ausência dos olhos verdes e expressivos do marido não era mais um vazio irreparável; transformara-se em uma força invisível, que a impulsionava a olhar o mundo de uma forma pessoal, íntima, quase como se estivesse aprendendo a viver novamente. Ela notou as cores das árvores, o brilho nas vitrines, o movimento das pessoas. Sentiu uma liberdade estranha, uma mistura de medo e excitação, como alguém que redescobre o prazer do desconhecido.
Ao chegar em casa, Clarice olhou para o próprio reflexo no espelho, vendo não apenas a mulher que sempre conhecera, mas uma nova versão de si mesma. Teve a certeza de que, mesmo sem os olhos dele ao seu lado, algo de sua presença permanecia ali, entre os seus próprios olhos, ajudando-a a enxergar o que antes era invisível.
Com dois olhos, Clarice redescobria o mundo ao seu redor, e, mais importante, redescobria a si mesma – uma nova Clarice, menos compartilhada, mas, de algum modo, mais completa e mais viva.
Silvia Marchiori Buss

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