Cartas Mãe e filha

Carta 1:

Mãe,

Estou te escrevendo pela primeira vez depois de tantos anos de silêncio entre nós. Dizer que é fácil seria mentira. Não é. Passamos tanto tempo guardando palavras não ditas, que, hoje, sinto que essas cartas são minha última chance de te dizer o que está aqui, acumulado há anos. Quero que saibas que, apesar de tudo, jamais agi para te punir ou te envergonhar. Durante muito tempo, confesso, eu nem entendia as razões do que fazia. Só mais tarde percebi que meu comportamento talvez fosse um pedido de socorro, uma maneira inconsciente de expressar a dor que não conseguia colocar em palavras.

Queria que soubesses o quanto me afetou aquele vazio que senti na minha infância, principalmente depois da perda da minha irmã. Lembro de observar teu olhar distante e frio e, por mais que eu tentasse, não conseguia entender o que tinha feito para te afastar. Por que me deixavas sempre à margem? Por que parecias tão indiferente às minhas conquistas, aos meus gestos? Hoje, sei que o abandono que senti talvez fosse o reflexo do teu próprio luto, uma dor que se tornou uma barreira entre nós duas.

Com o tempo, a mágoa foi crescendo, e, em vez de procurar respostas, acho que preferi fugir. Passei anos tentando encontrar minha própria identidade, me rebelando contra o que eu achava que esperavas de mim, tentando escapar da sombra que a nossa relação lançava sobre minha vida. Agora, olhando para trás, percebo que essa revolta pode ter sido minha maneira de te culpar, de te responsabilizar por todas as vezes em que me senti sozinha.

Mas hoje, mãe, com o coração mais leve, posso finalmente te dizer que entendo e que te perdoo.

Tua filha

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Carta 2:

Minha filha,

Receber tua carta me trouxe uma alegria inesperada. Ver tuas palavras foi como encontrar um pedaço de nós que pensei estar perdido. Sei que falhei contigo, e já não me engano tentando me convencer do contrário. Quando perdemos tua irmãzinha, algo dentro de mim quebrou de um jeito que eu não soube consertar.

Não sei se você sabe, mas durante teus primeiros meses de vida, minha atenção estava toda voltada para ti. Eu queria ser uma boa mãe para você, dar-te tudo o que precisava, mas, ao fazer isso, negligenciei os últimos momentos de vida da tua irmã. Ela se foi sem eu perceber o quanto também precisava de mim. E quando a morte dela me atingiu, eu senti como se o peso da culpa me obrigasse a me afastar de ti. Era como se cada olhar teu me lembrasse da minha falha, do quanto tinha perdido, do quanto me sentia vazia.

A verdade é que nunca te dei a chance de ser apenas minha filha. Eu mesma não me permiti o direito de ser tua mãe. Não queria que carregasses a culpa que era minha, mas, sem perceber, fui eu mesma quem construiu esse muro entre nós. Hoje entendo que a dor e o arrependimento que carreguei acabaram se transformando em um tipo de ressentimento injusto, algo que nunca deverias ter sentido.

Se pudesse voltar no tempo, daria qualquer coisa para evitar que carregasses essa herança de dor e indiferença. Estou tentando te pedir perdão, embora saiba que nenhuma palavra pode devolver o tempo que perdemos.

Carta 3

Querida mãe,

A morte da minha irmã não foi culpa minha, e sei disso agora. Eu era apenas um bebê, indefeso, sem consciência do que se passava ao meu redor. No entanto, passei anos sentindo como se minha existência tivesse carregado um fardo invisível – a marca de uma dor que não era minha. Lembro-me de crescer com um vazio inexplicável, uma distância entre nós que nunca entendi. Quando criança, eu não sabia por que você parecia tão distante, e, no fundo, eu achava que não era digna do teu amor.

Hoje, como mãe, posso imaginar o desespero que sentiste ao perder tua filha, tua menina. Naquele julho, não perdeste apenas uma filha; de certa forma, perdeste duas. Eu nasci e precisei de ti, mas tua alma já estava partida demais para estar comigo. Não consigo imaginar a dor de amar e perder em tão pouco tempo, e, com isso, percebo o quanto tua dor moldou a forma como crescemos, como tentamos, cada uma de nós, seguir em frente.

Dizer que não houve consequências seria mentir. Carrego cicatrizes invisíveis desse afastamento, dessa falta de carinho, mas quero que saibas que compreendo. Com o tempo, entendi que teu luto acabou tomando a forma de um muro entre nós, algo que nos separava, mesmo que ambas desejássemos romper essa distância.

Hoje, com o coração aberto, posso finalmente te perdoar. E gostaria de te encontrar, de olhar em teus olhos, de contar sobre minha vida, meus amores e minhas perdas. Quero partilhar meus próprios desafios como mãe e mulher, e pedir desculpas, se de alguma forma minha presença te fez sofrer. O que mais desejo é que possamos nos reencontrar de coração aberto, sem as sombras do passado.

Com amor e esperança,

Tua filha que te ama

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Carta 4:

Minha amada filha,

Teus sentimentos ecoam dentro de mim, e, ao ler tuas palavras, percebo o quanto meu luto me afastou de ti. A perda da tua irmã foi uma ferida que nunca soube curar; em vez disso, afastei de ti o amor que tu merecias. Agora entendo que, ao construir esse muro, te condenei a uma vida marcada por uma ausência que era minha responsabilidade preencher. Sei que nunca te ofereci o que precisavas: meu afeto, minha presença, meu cuidado. Deveria ter sido tua mãe em todos os sentidos, mas deixei que o sofrimento pelo que perdi me cegasse para o que ainda tinha.

Eu nunca imaginei que essa dor se transformaria em ressentimento. Carreguei comigo a culpa, mas, de algum modo, acabei projetando essa culpa em ti, como se o simples fato de tua existência fosse um lembrete constante do que perdi. Isso me machucou por anos, mas não tive coragem de admitir para mim mesma o erro cruel que cometi ao te abandonar emocionalmente. Fui covarde, e esse peso me acompanha desde então.

Hoje, tenho um desejo sincero de reparar, na medida do possível, o que fiz. Quero te acolher, quero ouvir sobre teus amores, tuas vitórias, tuas lutas. Quero saber quem te tornaste e me redimir, mesmo que tarde, por ter te deixado enfrentar a vida sem o apoio que merecias. Tenho esperança de que possamos construir algo novo, livre das sombras do passado, e que possamos nos perdoar mutuamente.

Sonho com o dia em que nos abraçaremos, Certa em que olharei em teus olhos e te direi que, apesar de tudo, sempre foste minha filha amada. Que possamos, finalmente, viver uma vida próxima, como mãe e filha, com o coração leve e aberto.

Com todo o amor e saudade,

Tua mãe

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Carta Final:

Querida irmã,

Escrevo para te contar que a mãe está no hospital. Ela sofreu um AVC e, ainda que seu corpo esteja frágil, sua vontade de te ver continua forte. Nos últimos tempos, ela falava de ti com uma esperança renovada, imaginando como seria o reencontro que ambas tanto desejavam.

Sei que a distância entre nós é grande, mas, se puderes, venha para casa. Ela precisa de ti, e eu acredito que esse encontro é algo que ambas esperam há muito tempo.

Com carinho,

Teu irmão

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Epílogo

A filha e a mãe tiveram onze dias juntas, um reencontro repleto de olhares e perdão. Mesmo sem muitas palavras, o silêncio entre elas foi preenchido por um entendimento profundo, uma paz que finalmente as envolveu. Nos olhares trocados, encontraram uma cumplicidade antiga, um amor que havia sido guardado em algum lugar do passado. E ali, no mais profundo silêncio, a mãe e a filha se redescobriram, deixando que a paz inundasse seus corações para nunca mais as abandonar.



Silvia Marchiori Buss

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