Amigas da onça

(Valéria) – Jura, Licinha, a Margô tá com o Betinho?

(Licinha) – Tenho certeza, todo o prédio tá sabendo. Só tu não sabes. Que síndica!

(Valéria) – Não costumo ser enxerida, como certas pessoas, por aí...

Valéria e Licinha eram como cão e gato, mas mantinham as aparências e seguiam a lei da boa vizinhança. Afinal, eram vizinhas de porta, uma era a síndica, a outra, a tesoureira do condomínio.

(Licinha) – Claro que não, Valéria, todo mundo sabe que tu cuidas de ti e dos outros! No bom sentido, amiga, afinal, és a síndica, não?

As duas entraram no elevador no décimo andar, onde ambas moravam. Tentavam evitar esses encontros, pois sabiam que o “lerdinho”, como chamavam o velho elevador, demorava uma eternidade até o térreo. Quem estivesse a bordo, precisava suportar o companheiro de viagem.

(Valéria) – Mas me diz uma coisa, teu marido já arranjou o tal emprego?

(Licinha) – Espero que sim! Tu bem sabes, como tesoureira, que meu condomínio não está em dia. Eu mantenho minha boca fechada, mas daqui a pouco todos vão ficar sabendo, e não pega bem pra ti nem pro teu cargo de síndica. Afinal, te escolheram pela tua... digamos, integridade!

(Licinha) – Que maldade, Valéria! Tu sabes bem que estamos passando por momentos de "vacas magras”. Mas logo, logo, Adalberto será chamado na multinacional. Se Deus quiser! Tu que és feliz: marido bem empregado, condomínio em dia, empregada, filha... digamos, sem problemas. Enfim, tudo o que uma madame deve ter. Falando em filha, a Tereza, que mandaste para o exterior, já teve o bebê?

(Valéria) – Bebê?! Como assim?! Não tem bebê nenhum, ela foi estudar!

(Licinha) – Engraçado, não foi o que o Filipi me disse. Afinal, meu filho e tua filha ficaram juntos no verão passado. Inclusive, olha que foto “meiga” que meu filho recebeu dela. Nem engordou tanto assim. Tá linda!

Sob o olhar espantado de Valéria, Licinha, afiada como uma onça, continuou:

(Licinha) – Inclusive, o Filipi diz que não é dele. Eles ficaram poucas vezes, e Tereza, tu sabes, não é flor que se cheire. É o que dizem por aí!

Com a maior ironia, Licinha acrescentou:

(Licinha) – Esse povo é maldoso! Não pode ver ninguém bem! Não liga, é ciúme, amiga...

Muito abalada com as informações, Valéria apenas balbuciou:

(Valéria) – Tá bem, tá bem, Licinha, esquece o condomínio!

Valéria ajeitou-se, pegou o talão de cheques e perguntou:

(Valéria) – Quanto é mesmo tua dívida, Licinha? Afinal, pra que servem as amigas?

No térreo, despediram-se como grandes... amigas da onça.




Silvia Marchiori Buss


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