Água e vinho
Otávio e Mara eram um casal que tinha tudo para dar errado. Ela, uma menina centrada, estudiosa, filha de mãe viúva, fazia das tripas coração para ajudar em casa e se destacar nos estudos. Ele, um rapaz bonito, "bem-nascido", filho único, vivia intensamente a década de 70, com tudo o que tinha direito: carros, namoradas e estudos. Era inteligente demais para se dedicar com afinco ao curso que escolhera; para ele, tudo parecia fácil. Até o trabalho que seu pai lhe oferecera, para que pudesse se sustentar e manter seu esporte preferido – o automobilismo – Otávio desempenhava com facilidade.
Mara precisava provar à mãe que era capaz, que tinha valor. A menina havia sofrido perdas significativas na família, sendo a maior delas a do pai, quando tinha apenas 11 anos. Ele era seu melhor amigo, e, por ser a mais velha das irmãs, Mara era mais cobrada pela mãe.
O casal se conheceu nos anos 70, em uma boate da cidade. Ele, malandro e com muitas namoradas, provavelmente via em Mara apenas mais uma conquista, aos olhos da família dela. Não aprovavam o relacionamento, que, para surpresa de todos, se estreitava a cada dia. A noite na boate foi mágica, o encantamento entre os dois foi imediato. Mesmo com todas as dificuldades para estarem juntos, o amor falou mais alto.
Amigos e parentes não acreditavam que duas pessoas tão diferentes, como água e vinho, poderiam dar certo. Mas não só deu certo, como vivem há quase cinquenta anos juntos, com muito amor, respeito e companheirismo.
O casal vivia em pura sintonia e, mesmo com as fragilidades da saúde que acometem os mais vividos, faziam da vida uma comédia romântica. Costumavam dizer que, em sua união, havia mais soluções do que problemas. E isso era verdade! Tão verdade que era percebido até por aqueles que um dia apostaram que o relacionamento não duraria, que tinha os dias contados.
Certa noite, esqueceram a dor do reumatismo, a sinusite, as dores nas costas e todas as outras “tranqueiras” que o passar do tempo traz, e decidiram se aventurar em uma noite na areia morna da praia onde viviam. Desejavam ardentemente se amar à luz da lua. Ela, sempre romântica, estendeu um lençol de linho claro, tão branco quanto o luar que os banharia nessa aguardada aventura. Ele, com sua finesse de homem "bem-nascido", cuidou das bebidas e dos cálices de cristal. Teria que ser de cristal – mesmo que quebrassem, não importava. O essencial naquela noite era o amor que partilhariam na areia aquecida pelo sol escaldante do dia.
Tudo estava pronto! O cenário de ternura era perfeito.
Perto da meia-noite, saíram de casa sob os olhares curiosos dos filhos e netos. Otávio apenas levantou a mão, indicando que não fizessem perguntas. Abraçou carinhosamente a esposa e seguiram para viver a tão esperada aventura.
O cenário de ternura os envolvia. O desejo de se amarem sob a lua transbordava de cada parte de seus corpos. Deitaram-se. Já não eram necessárias palavras; o toque, por si só, bastava para que o desejo aflorasse, como sempre foi. Não precisavam mais de perguntas nem respostas para que tudo se tornasse real e belo.
Adormeceram de mãos dadas. A noite de amor, tão ansiada, se fez com a mesma intensidade da combinação perfeita entre água e vinho.
Silvia Marchiori Buss

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