A vingança

As amigas de Toninha estavam indignadas com a cretinice de Nino. "O que ele fez não se faz nem com uma cadela!" diziam, convencidas de que ela precisava ser vingada. Toninha, por sua vez, estava em tratamento médico, lutando contra uma depressão profunda, resultado direto da "cachorrada" do ex-namorido.

Desde jovem, Toninha trabalhava em salão de beleza, e com muito esforço conseguiu abrir o seu próprio. A clientela era grande e fiel, e vez ou outra surgia um cliente novo. Foi assim que conheceu Nino, o homem que destruiria sua autoestima e a levaria à falência.

– Esse cachorro sem vergonha, quem ele pensa que é? Desabafava uma amiga.

– Ah, ele é o gostoso! Todas caem por ele, então se aproveita...

De fato, Nino era pura sedução. Alto, cheiroso e charmoso, tinha fama de destruidor de corações. E com Toninha não foi diferente. Ele usou seu crédito, esvaziou suas contas, e sujou seu nome na praça. O salão estava à beira da falência.

– Processa ele! Dizia uma amiga revoltada.

– Mas ela autorizou tudo... foi tudo às claras! Ponderava outra. 

– Eu bem que avisei, mas mulher apaixonada, sabe como é!

A verdade era simples: Nino se deu muito bem. Comprou um belo imóvel e um carrão, tudo às custas de Toninha. Safado ao extremo!

– O que esse malandro tem que os outros não têm? Perguntava a amiga mais próxima, funcionária do salão e futura desempregada.

– Tudo bem, ele é cretino, sem-vergonha, mas ninguém pode negar que é um pedaço de mau caminho... Suspirava outra.

A conversa entre as amigas não tinha fim. Movidas pela solidariedade e pela frustração, decidiram que era hora de agir. Nino precisava levar uma boa rasteira, acreditavam que só assim Toninha recuperaria sua autoestima.

Com isso, armaram um plano. Contrataram Zildinha, uma mulher tão linda que fazia qualquer homem se perder. Exuberante e fatal, Zildinha aceitou o desafio por um cheque generoso. Prometeu que, em três meses, deixaria Nino na mesma sarjeta emocional em que ele havia jogado Toninha.

O tempo passou. Um mês, dois meses, e enquanto a conta de Zildinha só engordava, a de Toninha se esvaziava cada vez mais.

– Deixa comigo! Falta só isso aqui! Dizia Zildinha, juntando os dedos indicador e polegar, indicando o quanto faltava para Nino cair na sua teia.

Três meses, três meses e meio... e nada!

– Isso já é abuso! Reclamava a comandante do "resgate de autoestima" de Toninha.

– Ela precisa se explicar! Como pode estar demorando tanto?

– Afinal, ela é ou não é uma “profissa”? Questionava outra.

Decididas a obter respostas, as amigas foram ao "ninho de amor" do casal. Mas, ao chegarem lá, depararam-se com algo inesperado: Zildinha estava literalmente arrasada... completamente apaixonada por Nino. Ela chorava de forma desesperada, igual a Toninha antes dela.

Atônitas, as amigas se entreolharam. A situação, que deveria ser uma vingança, havia virado uma comédia trágica.

– Ele me abandonou! Soluçava Zildinha, sem conseguir conter as lágrimas. 

– Tô em depressão!

O ciclo parecia não ter fim, e o malandro continuava a sua rota de destruição, deixando mais uma vítima para trás. As amigas, frustradas e furiosas, perceberam que a verdadeira vingança talvez nunca chegasse.




Silvia Marchiori Buss


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