" O Anel Era de Vidro"...
O anel era vidro e se quebrou numa tarde tão silenciosa que até os móveis pareciam escutar alguma coisa.
Não caiu de uma grande
altura.
Não houve grito.
Nem aquelas cenas exageradas que os filmes gostam de usar quando querem
convencer alguém de que o amor acabou.
Foi apenas um pequeno som.
Quase delicado.
Como uma taça fina, aquela
que conheceu tantos lábios, desistindo de continuar inteira.
Ela ainda segurava a sacola
de pão contra o peito quando percebeu os fragmentos espalhados no chão da
cozinha. Alguns brilhavam perto da janela. Outros tinham deslizado para baixo
da mesa, como bichos assustados procurando esconderijo.
Curioso como certas coisas
escolhem morrer exatamente em dias comuns.
Do lado de fora, o céu
tinha a cor das cartas antigas. O ônibus passava cheio. Uma mulher caminhava
carregando flores amarelas. Em algum apartamento distante, alguém ria alto
demais.
E ali, entre migalhas
invisíveis do cotidiano, estava o anel.
Vidro.
Nunca diamante.
Nunca ouro.
Vidro.
Durante anos, ela escondera
isso do mundo como quem protege um segredo pequeno demais para ser explicado.
As pessoas admiravam o brilho e inventavam riquezas ao redor dele. Ela apenas
sorria, porque algumas felicidades não suportam iluminação direta.
O homem que lhe deu o anel
dizia que vidro era matéria honesta.
— O ouro aprende a
sobreviver enterrado. O vidro nasce sabendo que pode partir.
Na época, ela achou bonito
sem entender completamente.
Agora entendia.
As mãos envelhecem primeiro
pelos silêncios. Depois pelas ausências. Só muito mais tarde pelas rugas.
Ela ajoelhou devagar.
Recolheu um pedaço maior entre os dedos e viu o próprio rosto deformado dentro
dele. Parecia outra mulher vivendo ali. Uma mais cansada. Ou talvez mais
verdadeira.
As pessoas falam dos
grandes amores como incêndios.
Mas os amores longos quase nunca queimam.
Eles enferrujam devagar dentro das gavetas da rotina. Criam poeira nos cantos.
Adormecem sentados à mesa enquanto a sopa esfria.
Ainda assim… continuam
respirando de algum modo estranho.
Na parede da cozinha, o
relógio seguia insistindo no tempo com sua arrogância mecânica. Tic. Tic. Tic.
Ela odiou aquele relógio
naquele instante.
Porque havia dias em que o
tempo parecia um médico cruel mantendo vivo aquilo que já não sabia levantar da
cama sozinho.
Ficou olhando os cacos.
Cada um devolvia um pedaço
da casa: a toalha torta, a cortina cansada, a chaleira esquecida sobre o fogão.
Nenhum refletia o anel inteiro. Apenas partes. Amar alguém por muitos anos,
talvez seja isso...Amar em partes.
Não possuir mais o desenho
completo.
Somente fragmentos luminosos.
A voz dele apareceu antes
da lembrança do rosto.
— Cuidado pra não cortar os
dedos.
Ela quase respondeu.
Quase.
A memória às vezes entra na
casa sem bater. Senta no sofá. Abre armários. Usa perfume antigo. E vai embora
deixando tudo fora do lugar.
Do lado de fora começou a
chover fino.
Uma chuva tímida, dessas
que não molham imediatamente, mas convencem o mundo aos poucos.
Ela buscou a vassoura.
Depois desistiu.
Havia certa crueldade em
varrer um amor para dentro de uma pá de lixo.
Então ficou ali, sentada no
chão frio da cozinha, observando os pequenos brilhos espalhados pelo piso como
estrelas que perderam o céu.
Pensou em como o vidro é
estranho.
Transparente, mas capaz de
ferir.
Frágil, mas resistente durante anos se ninguém apertar demais.
Bonito justamente porque vive ameaçado.
Talvez pessoas também
fossem feitas desse mesmo material invisível.
Naquela noite, ela deixou
os pedaços onde estavam.
A lua atravessou a janela e
encostou sua luz nos cacos espalhados pela casa. Por alguns minutos, o chão
inteiro pareceu coberto de pequenos rios acesos.
E quem passasse pela porta
sem conhecer a história talvez jurasse que alguma coisa ali ainda brilhava
intacta.
Silvia Marchiori Buss
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