A Última Respiração da Casa

O lugar era tão silencioso que ela escutava seu pensamento respirar. Não como metáfora — respirava mesmo. Curto, cansado, às vezes com uma falha pequena no meio, como se até os pensamentos envelhecessem.

A casa surgira no meio da estrada pouco antes do anoitecer, embora ela conhecesse aquele caminho desde menina e jamais houvesse existido construção alguma ali. Nem árvores. Nem cerca. Apenas o campo úmido e a neblina baixa que parecia esquecer de ir embora.

Parou o carro porque viu luz atrás das cortinas.

Depois já não soube explicar por que descera.

As janelas eram altas demais. As portas estreitas demais. Tudo parecia construído a partir da memória imperfeita de alguém.

Quando tocou a maçaneta, sentiu uma estranha calma — a sensação de quem chega atrasado a um lugar onde já o esperavam há muito tempo.

A porta abriu sozinha.

O corredor tinha cheiro de chuva guardada em gavetas antigas. Quadros pendurados mostravam paisagens que mudavam devagar quando ela desviava os olhos. Em um deles, um homem caminhava dentro do mar carregando uma mala. Em outro, pássaros atravessavam o teto de uma igreja inundada.

Ela avançou lentamente.

O assoalho rangia antes dos seus passos.

Foi então que percebeu o relógio.

Enorme. Sem ponteiros. Mesmo assim pulsava um tic-tac úmido e lento, como um coração funcionando dentro da parede.

Tentou voltar.

O corredor já havia mudado.

As paredes estavam mais distantes. O teto mais alto. E as portas — tinha certeza — agora eram muitas.

Abriu uma delas.

Encontrou um quarto infantil coberto por areia fina. Pequenas dunas avançavam sobre os móveis enquanto peixes atravessavam o teto como se aquilo fosse água.

Fechou.

Na porta seguinte havia neve subindo em vez de cair.

Noutra, viu uma mulher muito parecida consigo mesma dormindo à mesa, segurando uma xícara vazia com a delicadeza de quem ainda espera alguém chegar.

Continuou andando.

O silêncio parecia crescer ao redor dela, encostar em sua roupa, subir pelos braços.

Então ouviu passos atrás dos seus.

Não assustavam.

Eram passos conhecidos.

Passos de quem atravessou muitos anos ao seu lado sem precisar dizer nada.

Parou.

Os passos também.

Seu coração apertou devagar.

— Você demorou.

A voz não vinha de um cômodo específico. A casa inteira parecia ter falado.

Ela tentou responder, mas percebeu que sua voz surgia escrita lentamente nas paredes úmidas:

“Eu me perdi.”

As lâmpadas vacilaram.

Depois outra frase apareceu perto do teto, desenhada pela sombra:

“Não mais.”

Uma corrente de ar atravessou os corredores. As portas começaram a abrir e fechar sozinhas, como se a casa respirasse junto dela.

Ela caminhou sem resistência agora.

Passou por salas onde cadeiras embalavam ausências. Por uma cozinha onde frutas amadureciam e apodreciam ao mesmo tempo. Por um espelho que refletia versões dela em diferentes idades — menina, jovem, mulher, velha — todas olhando em direção ao mesmo ponto atrás dela.

Até encontrar a janela.

Lá fora não havia estrada.

Nem céu.

Apenas uma claridade branca e funda, como manhã escondida dentro da neblina.

E alguém parado do outro lado.

No início era apenas contorno.

Depois os ombros.

As mãos.

O jeito de permanecer imóvel enquanto esperava.

Ela não chorou. Nem chamou pelo nome.

Apenas sentiu o corpo inteiro reconhecer antes da memória.

O homem deu um pequeno passo à frente.

E naquele instante ela percebeu que o som da respiração cansada que escutava desde o começo não vinha da casa.

Nem dos pensamentos.

Vinha dela mesma.

Curta.

Difícil.

Como quem sobe uma escada muito longa.

Ele ergueu a mão devagar, num gesto simples, quase cotidiano, como fazia tantas vezes ao encontrá-la depois de um dia comum.

Então aconteceu algo estranho.

A casa começou a diminuir de ruído.

O relógio desacelerou.

As portas pararam.

O silêncio deixou de pressionar suas costas.

E a respiração dela, antes falha, começou finalmente a se acalmar.

Uma inspiração lenta.

Depois outra.

Até ficar tão tranquila que já não parecia precisar continuar sendo escutada.

Silvia Marchiori Buss

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